Por ser
lícita, essa droga faz milhares de vítimas diariamente
Manhã
agitada no coração de Cascavel, céu ensolarado, som dos pássaros encoberto pelo
barulho do trânsito, pessoas andando rápido, como se estivessem participando de
provas de Atletismo,motos “zigzaguendo” fazendo da espessa camada de asfalto, uma
pista de rally. Motoristas impacientes protegidos em suas cápsulas de
ferro e aço, torcendo para que nenhum pedestre coloque o pé na faixa. Ornato
que os usuários ainda têm direito a usarem. Local, mais precisamente a
rotatória que liga a Avenida Brasil com a rua com nome de senador eleito no
Paraná: Souza Naves.
Enquanto
milhares de pessoas rasgavam o calçadão cascavelense, eu aproveitava aquelas
árvores que ainda resistem na avenida para me abrigar do sol, sob um banco
desconfortável de madeira, reparava as fisionomias das pessoas que muitas vezes
não olhamos na ligeireza do dia a dia. Até que uma dessas pessoas como um
alarme gritava ao atravessar a rua, no primeiro momento não liguei muito, até
que mais um grito animalesco foi expelido. Uma senhora que aparentava ser da
“nova” terceira idade seguia a passos firmes, carregando as suas sacolas de
compras e como se ninguém lhe ouvisse soltou o murmurinho: “Meu Deus, que homem
louco!”.
Pensei,
qual será o problema de uma pessoa gritar na rua, o que ele queria com aquela
atitude, quem é ele? E o livre arbítrio, fica onde? . Saltei do banco como se
pulasse de um penhasco e fui atrás desse homem para descobrir do que se
tratava.
Homem
de aparência jovem, aproximadamente 45 anos, se assemelhava muito ao “Russo” da
última novela global. Usava uma camisa xadrez cinza, não eram cinquenta tons,
mas era cinza; calça jeans de marca e um sapato de couro amarelo. Como se
estivesse participando de campanha eleitoral entrava em todos os
estabelecimentos, não para pedir, nem para falar alto, muito menos para comprar
mais bebida, mas sim para cumprimentar. Simplesmente cumprimentar.
Com
uma garrafa de conhaque com nome de gestor eleito pelo povo para governar o
país, o homem seguia seu caminho torpe, não cambaleava, não desequilibrava,
apenas andava em linha reta. Estranho para alguém que é refém do álcool, às 9h
da manhã.
1.Bebida
alcoólica- toda bebida que contenha álcool etílico.
2.Alcoólatra-
S.m e s.f-Indivíduo viciado em bebida alcoólica.
Essa
grave lástima do século, faz reféns de todas as idades, não escolhe
idade,posição social e nem sexo. Hoje se estima que no Brasil 5,8 bilhões de
pessoas são vítimas do etílico.
Em
pesquisa recente, um tal ministério que controla os assuntos saudáveis ou não
do povo brasileiro afirma que,quase 20% da população é dependente do lícito.
Esse
problema não é mérito apenas dos membros do presente século, como já cantava a
saudosa Inezita Barroso em sua composição de 1953:
“Com a
marvada pinga,
É que eu
me atrapaio
Eu entro
na venda e já dou meu taio
Pego no
copo e dali nun saio
Ali memo
eu bebo
Ali memo
eu caio” [...]
De
forma cômica, a cantora retratou a rotina de milhares de pessoas que se
assemelham a esse senhor, qual era seu nome:Pedro,João, Antônio não sabemos.
Apesar de todos os poréns, não deixa de cuidar de sua aparência. Ao passar pelo
vidro do imponente cartório, para por alguns segundo apenas para ajeitar o
cabelo desarrumado. Ao passar por uma vitrine que tinha uma exuberante mulher,
o senhor “x” para e dá um beijo nela, teria ele uma esposa para afagar, e dar
aquele beijo roubado?
Aos
olhos de muitos, é apenas um bêbado, alguns olham com desdém, outros riem desse
sério problema de saúde, enquanto que outros dão a devida atenção que aquele
senhor necessita.
Em uma das lojas que o senhor entrou, que
vende roupas estritamente femininas; a vendedora que com estranheza não
entendeu a presença de um jornalista em processo de formação naquele estabelecimento, contou que o senhor
não dá trabalho,não incomoda, só conta histórias aleatórias. Em alguns dias ele
entra na loja de perfumes, para passar a sua fragrância preferida e vai embora.
-Dizem,
que ele ficou na rua assim depois que o irmão gêmeo dele morreu.
Verdade,
mentira, boatos, fatos.Misto de incertezas.
Mais
algumas quadras a frente, o homem olha para seu litro de conhaque, e calcula o
quanto de ópio ainda resta, quanto de fuga da realidade sobrava.
Uma
senhora que desde o início do trajeto falava no celular, acompanha tudo, todos
os gestos, todos os passos, todos os apertos de mão. Assim como os demais
comenta que ele poderia ser um homem melhor se não bebesse. Uma mulher que
assistia a tudo enquanto manobrava seu veículo popular, dispara um comentário:
-Ele
tem casa, dizem que ele era gerente de um banco, tem família e dinheiro, mas
por causa da bebida fica assim na rua.
Irmão
que morreu. Alcoolismo. Gerente de banco. E agora?
Enquanto
eu parei pra pensar nas possibilidades e anotar algumas informações, o homem
que utilizava mais uma vez do grito para atravessar a rua, como em um passe de
mágica some,segue seu rumo, desaparece! Não sei quem era, muito menos quem foi,
qual eram suas angústias, sofrimentos, alegrias, não sei se realmente ele
existe, não sei de onde ele veio, pra onde ele vai.Não sei se ele realmente já
foi gerente, ou perdeu seu irmão, cópia fiel. A única certeza que possuo que
ele é uma vítima,mais uma, que a praga do alcoolismo conseguiu alistar.

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