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quarta-feira, 27 de novembro de 2013

“A marvada pinga é que atrapaia” - Ricardo Oliveira




Por ser lícita, essa droga faz milhares de vítimas diariamente

Manhã agitada no coração de Cascavel, céu ensolarado, som dos pássaros encoberto pelo barulho do trânsito, pessoas andando rápido, como se estivessem participando de provas de Atletismo,motos “zigzaguendo” fazendo da espessa camada de asfalto, uma pista de rally. Motoristas impacientes protegidos em suas cápsulas de ferro e aço, torcendo para que nenhum pedestre coloque o pé na faixa. Ornato que os usuários ainda têm direito a usarem. Local, mais precisamente a rotatória que liga a Avenida Brasil com a rua com nome de senador eleito no Paraná: Souza Naves.

Enquanto milhares de pessoas rasgavam o calçadão cascavelense, eu aproveitava aquelas árvores que ainda resistem na avenida para me abrigar do sol, sob um banco desconfortável de madeira, reparava as fisionomias das pessoas que muitas vezes não olhamos na ligeireza do dia a dia. Até que uma dessas pessoas como um alarme gritava ao atravessar a rua, no primeiro momento não liguei muito, até que mais um grito animalesco foi expelido. Uma senhora que aparentava ser da “nova” terceira idade seguia a passos firmes, carregando as suas sacolas de compras e como se ninguém lhe ouvisse soltou o murmurinho: “Meu Deus, que homem louco!”.

Pensei, qual será o problema de uma pessoa gritar na rua, o que ele queria com aquela atitude, quem é ele? E o livre arbítrio, fica onde? . Saltei do banco como se pulasse de um penhasco e fui atrás desse homem para descobrir do que se tratava.

Homem de aparência jovem, aproximadamente 45 anos, se assemelhava muito ao “Russo” da última novela global. Usava uma camisa xadrez cinza, não eram cinquenta tons, mas era cinza; calça jeans de marca e um sapato de couro amarelo. Como se estivesse participando de campanha eleitoral entrava em todos os estabelecimentos, não para pedir, nem para falar alto, muito menos para comprar mais bebida, mas sim para cumprimentar. Simplesmente cumprimentar.

Com uma garrafa de conhaque com nome de gestor eleito pelo povo para governar o país, o homem seguia seu caminho torpe, não cambaleava, não desequilibrava, apenas andava em linha reta. Estranho para alguém que é refém do álcool, às 9h da manhã.

1.Bebida alcoólica- toda bebida que contenha álcool etílico.

2.Alcoólatra- S.m e s.f-Indivíduo viciado em bebida alcoólica.

Essa grave lástima do século, faz reféns de todas as idades, não escolhe idade,posição social e nem sexo. Hoje se estima que no Brasil 5,8 bilhões de pessoas são vítimas do etílico.
Em pesquisa recente, um tal ministério que controla os assuntos saudáveis ou não do povo brasileiro afirma que,quase 20% da população é dependente do lícito.
Esse problema não é mérito apenas dos membros do presente século, como já cantava a saudosa Inezita Barroso em sua composição de 1953:

“Com a marvada pinga,
É que eu me atrapaio
Eu entro na venda e já dou meu taio
Pego no copo e dali nun saio
Ali memo eu bebo
Ali memo eu caio” [...]

De forma cômica, a cantora retratou a rotina de milhares de pessoas que se assemelham a esse senhor, qual era seu nome:Pedro,João, Antônio não sabemos. Apesar de todos os poréns, não deixa de cuidar de sua aparência. Ao passar pelo vidro do imponente cartório, para por alguns segundo apenas para ajeitar o cabelo desarrumado. Ao passar por uma vitrine que tinha uma exuberante mulher, o senhor “x” para e dá um beijo nela, teria ele uma esposa para afagar, e dar aquele beijo roubado?

Aos olhos de muitos, é apenas um bêbado, alguns olham com desdém, outros riem desse sério problema de saúde, enquanto que outros dão a devida atenção que aquele senhor necessita.

 Em uma das lojas que o senhor entrou, que vende roupas estritamente femininas; a vendedora que com estranheza não entendeu a presença de um jornalista em processo de formação  naquele estabelecimento, contou que o senhor não dá trabalho,não incomoda, só conta histórias aleatórias. Em alguns dias ele entra na loja de perfumes, para passar a sua fragrância preferida e vai embora.

-Dizem, que ele ficou na rua assim depois que o irmão gêmeo dele morreu.

Verdade, mentira, boatos, fatos.Misto de incertezas.

Mais algumas quadras a frente, o homem olha para seu litro de conhaque, e calcula o quanto de ópio ainda resta, quanto de fuga da realidade sobrava. 

Uma senhora que desde o início do trajeto falava no celular, acompanha tudo, todos os gestos, todos os passos, todos os apertos de mão. Assim como os demais comenta que ele poderia ser um homem melhor se não bebesse. Uma mulher que assistia a tudo enquanto manobrava seu veículo popular, dispara um comentário:

-Ele tem casa, dizem que ele era gerente de um banco, tem família e dinheiro, mas por causa da bebida fica assim na rua.

Irmão que morreu. Alcoolismo. Gerente de banco. E agora?

Enquanto eu parei pra pensar nas possibilidades e anotar algumas informações, o homem que utilizava mais uma vez do grito para atravessar a rua, como em um passe de mágica some,segue seu rumo, desaparece! Não sei quem era, muito menos quem foi, qual eram suas angústias, sofrimentos, alegrias, não sei se realmente ele existe, não sei de onde ele veio, pra onde ele vai.Não sei se ele realmente já foi gerente, ou perdeu seu irmão, cópia fiel. A única certeza que possuo que ele é uma vítima,mais uma, que a praga do alcoolismo conseguiu alistar.


Texto de Ricardo Oliveira

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