Sento. Ajeito
a cadeira. Ligo a máquina. Posiciono os dedos e... Nada. Depois de ter lido
quatro crônicas me preparo para fazer a primeira da minha vida. A inspiração
não surge. Gostaria de fazer um belo texto. Mas a única coisa que tenho a
disposição é um dia chuvoso, uma família que não sabe falar baixo e o
desespero.
– Não consigo fazer nem a primeira. Se
depender disso para viver, morrerei de fome – Suplico por uma ideia.
Depois de
vários minutos sentado em frente ao monitor, remoendo as lembranças, as
histórias do dia-a-dia, algum fato marcante e... Ainda nada.
Em um
instante de criatividade, aproveito tudo que surge a mente, ideias,
imaginações. Achei que não conseguiria, mas consegui. Começo a escrever. Ainda com
os dedos em movimento, recordo dos minutos anteriores. Impressiono-me comigo
mesmo, porque nunca fui de ter lapsos de criatividade, mas como um estalar de
dedos, tudo aconteceu. As ideias estão todas ordenadas, tudo fluindo, o filho
está prestes a nascer.
Depois de
escutar tanto na faculdade: “Trate o seu texto como um filho”, me sinto como um
pai, apreciando a beleza do seu filho. “Ele é tão pequeno, mas tão lindo”. Descrito
nas palavras, milimetricamente ordenadas e selecionadas, está o conjunto
magnifico de frases. Confesso, já tinha pensado em escrever sobre aquele assunto
há vários dias, mas queria algo mais. Talvez, até mais dramático.
Agora, depois
de terminado, fazendo os últimos retoques, percebo que faço parte do texto,
vejo o reflexo dos meus pensamentos nas letras. De repente, caio em uma
depressão profunda, nunca me sentira tão inútil antes, tudo está acabado.
Porque não
preveni? Porque não me lembrei de fazer isso antes? Não sei! Tudo surgiu muito
rápido, e muito rápido foi embora. O filho está morto!
Nada mais
fazia sentido, tinha acabado tudo, as ideias sumiram. A chuva lá fora é
intensa, já passam das seis da tarde de domingo. Trovões, raios, tudo aquilo contribuiu
para que aquele que acabara de nascer, acabara de morrer.
Um pico de
luz acabou com tudo. O que me resta fazer agora? Ligar o computador, torcer
para não ter queimado e começar um novo texto.
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