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sexta-feira, 8 de novembro de 2013

CRÔNICA: A dor de perder um filho - Maicon Roselio



Sento. Ajeito a cadeira. Ligo a máquina. Posiciono os dedos e... Nada. Depois de ter lido quatro crônicas me preparo para fazer a primeira da minha vida. A inspiração não surge. Gostaria de fazer um belo texto. Mas a única coisa que tenho a disposição é um dia chuvoso, uma família que não sabe falar baixo e o desespero.

      – Não consigo fazer nem a primeira. Se depender disso para viver, morrerei de fome – Suplico por uma ideia.

Depois de vários minutos sentado em frente ao monitor, remoendo as lembranças, as histórias do dia-a-dia, algum fato marcante e... Ainda nada.

Em um instante de criatividade, aproveito tudo que surge a mente, ideias, imaginações. Achei que não conseguiria, mas consegui. Começo a escrever. Ainda com os dedos em movimento, recordo dos minutos anteriores. Impressiono-me comigo mesmo, porque nunca fui de ter lapsos de criatividade, mas como um estalar de dedos, tudo aconteceu. As ideias estão todas ordenadas, tudo fluindo, o filho está prestes a nascer.

Depois de escutar tanto na faculdade: “Trate o seu texto como um filho”, me sinto como um pai, apreciando a beleza do seu filho. “Ele é tão pequeno, mas tão lindo”. Descrito nas palavras, milimetricamente ordenadas e selecionadas, está o conjunto magnifico de frases. Confesso, já tinha pensado em escrever sobre aquele assunto há vários dias, mas queria algo mais. Talvez, até mais dramático.

Agora, depois de terminado, fazendo os últimos retoques, percebo que faço parte do texto, vejo o reflexo dos meus pensamentos nas letras. De repente, caio em uma depressão profunda, nunca me sentira tão inútil antes, tudo está acabado.
Porque não preveni? Porque não me lembrei de fazer isso antes? Não sei! Tudo surgiu muito rápido, e muito rápido foi embora. O filho está morto!

Nada mais fazia sentido, tinha acabado tudo, as ideias sumiram. A chuva lá fora é intensa, já passam das seis da tarde de domingo. Trovões, raios, tudo aquilo contribuiu para que aquele que acabara de nascer, acabara de morrer.

Um pico de luz acabou com tudo. O que me resta fazer agora? Ligar o computador, torcer para não ter queimado e começar um novo texto.

Porque não salvei? Droga!


Texto de Maicon Roselio

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