Maximiliane Veiga
Ele já sofreu perseguições por “falar o que não devia”, mas isso não o fez se calar. “Sou vítima do conhecimento que adquiri com o tempo”.
Anselmo Cordeiro nasceu em 01 de junho de 1957, na cidade de Guaraniaçu - PR . Filho de descendentes portugueses, Anselmo desde muito jovem precisou enfrentar as dificuldades da vida. Aos 13 anos perdeu seu pai e precisou lutar pela sobrevivência. Trabalhou em diversos ramos, incluindo balcões de bares, onde sem saber estava começando a sua vida jornalística. Era nos bares e nas casas de comércio que ficava sabendo de todos os acontecimentos, recebia e repassava informações, assim adquiriu muito conhecimento ao longo da vida. No jornalismo, começou escrevendo um boletim informativo, passou pelos jornais Fronteira do Iguaçu, O Paraná, Jornal Hoje, Folha de Londrina, Estado do Paraná e Gazeta do Paraná. Anselmo foi editor-chefe de todos estes veículos. É conhecido por suas declarações polêmicas contra políticos e pessoas influentes da região, pelo seu livro Ninho de cobras, o qual fez muita gente se incomodar nos anos 80 e pelas desavenças e declarações polêmicas contra o atual prefeito de Cascavel, Edgar Bueno.
Na sua infância, você tinha conhecimento das atrocidades que aconteciam?
Eu nasci em meio ao maior projeto de colonização programado do Brasil. Meu avô participou da abertura da estrada estratégica, que ligava Paranaguá à Foz do Iguaçu. Então eu me criei nesse meio de estrada vendo meu pai atender fregueses e assim, conheci jagunços, pistoleiros e gente de toda ordem. Nossas casas de comércio eram ponto de chegada e partida dessas pessoas. Eles matavam
pela madrugada e chegavam em nossas casas pela manhã, para se abastecer, comprar algumas coisas e já partiam. Sendo assim, eu cresci vendo maldade, desde muito jovem eu já sabia de tudo que acontecia na época. Depois quando comecei a trabalhar no Jornalismo fui recordando um pouco do passado e mesclando tudo.
Em que momento você decidiu trabalhar com Jornalismo?
Desde muito jovem, atrás do balcão, eu tinha gosto pela informação e claro, conversava com os viajantes. Eu estava sempre recebendo e repassando informações. Comecei a trabalhar nesta área em 1975, então com 17 anos, fazendo um boletim informativo. Esse boletim era um informativo esportivo, com os resultados dos jogos da rodada. Já 1976 fui trabalhar no Jornal O Paraná, sou da primeira equipe desse veículo. Eles precisavam de um repórter aqui de Cascavel, pois a equipe do O Paraná tinha vindo totalmente de Londrina e Maringá. Comecei cobrindo esporte amador e com o tempo fui ganhando espaço, aprendendo e conhecendo.
Em algum veículo de comunicação que trabalhou precisou ocultar determinada história?
Sim, por que o Jornalismo é a voz do dono não é a tua voz. Você tem a tua opinião, mas não é a tua voz. Ou você está ali e respeita e obedece aos interesses do patrão ou você sai. Eu era editor-chefe da Gazeta do Paraná, na época um dos maiores jornais do Paraná, disparado o melhor do interior, e eu sai do jornal por discordar da orientação patronal.
Infelizmente Cascavel não tem nenhum veículo de comunicação que é de jornalista. Você pode pegar todos, a televisão Tarobá é de comerciante de secos e molhados, a rádio Capital que é hoje a CBN, é de comerciante de maquinas agrícolas, a rádio Globo é de comerciante de terrenos e latifundiários, a rádio Colméia é de comerciante de açúcar, a Catve é de empresário de outro setor, então eles não tem compromissos diretos com o jornalismo, os interesses deles são outros.
“O Jornalismo é a voz do dono, não é a tua voz. Você tem a tua opinião, mas não é a tua voz”.
E o que você acha sobre isso?
Olha, vocês vão enfrentar este tipo de realidade. Eu estou com 55 anos, tenho um conhecimento que acredito ser razoável, eu acho que todo esse pessoal que trabalha em jornais de Cascavel já passaram pelas minhas mãos quando estagiário, eu ensinava o cara a escrever, corrigia a caneta, e hoje que acredito estar bem preparado não consigo emprego nem de foca em nenhum jornal, rádio, ou televisão da cidade, por que sou vítima do conhecimento que adquiri com o tempo. É muito mais conveniente para eles contratar um estagiário que não tem prática e não conhece as malandragens do dia a dia. Um repórter de maior bagagem não aceita qualquer tipo de ordem, já o estagiário vai aceitando por que precisa e está se preparando. Hoje eu encontro dificuldade por que eles detestam alguém que saiba, conteste ou tenha opinião, é uma realidade muito triste, mas que temos que enfrentar.
Em 1986, você escreveu o livro Ninho de Cobras, qual foi a sua intenção ao escrever esta obra?
Eu trabalhei muito tempo sobre as ordens dos patrões e jamais contrariei a ideia deles, mas em todo esse tempo eu fui acumulando tanto conhecimento que não podia publicar, que ai eu disse sabe de uma coisa, eu vou escrever um livro meu que aí não comprometo nenhum jornal. Então eu peguei muitas informações dos jornais em que trabalhei, reportagens que por vezes eu tive que fazer mutiladas, ampliei e publiquei tudo de uma maneira mais consistente. O livro Ninho de Cobras não teve o objetivo de agredir ninguém absolutamente, tanto é que convivo com todas as pessoas que ali estão citadas. Era apenas um registro da época que eu não podia fazer nos jornais, então eu resolvi escrever o livro. Assim sendo, era minha obra, era eu quem assinava, tanto é que foi um livro mal feito, não teve requinte gráfico foi uma situação bem precária, mas fiz por que era o que eu pensava da época, era o conhecimento que eu tinha, não foi pra afrontar ninguém e nem pra ganhar muito dinheiro.
E depois que você lançou o livro, qual foi seu próximo passo?
O dinheiro que ganhei tive que usar pra ir embora e ficar dois anos longe de Cascavel, por que fui muito perseguido. Muita gente arrematou os livros das bancas, compraram tudo e me perseguiram muito. Então para não ver a minha família sofrer, fiquei um tempo em Buenos Aires, logo após fui para Asunción até acalmar um pouco as coisas por aqui.
No final do livro você cita que deixou uma lista de nomes de pessoas que poderiam te matar, por que resolveu fazer isto?
Sim, eu deixei com alguns amigos, pois eu já conhecia o modo em que se operava a situação, até foi um amigo meu que deu essa ideia, ele me disse Anselmo faz o seguinte, deixe uma relação de pessoas que você suspeita com alguns amigos por que assim eles vão te proteger também. Eu segui o conselho do Rubilar e deixei com meus amigos essa lista de nomes de algumas pessoas que poderiam vir a ter uma atitude dessa natureza, mas como meu livro é escancarado e aberto as pessoas ali contidas imaginaram que se alguma coisa acontecesse cairia sobre os próprios ombros. Porém, eu sofri algumas restrições e constrangimentos no sentido de bloqueio econômico e de trabalho, mas de violência física eu nunca tive.
“O livro Ninho de cobras não teve o objetivo de agredir ninguém absolutamente”.
Atualmente você tem acesso a informações como tinha nessa época? Eu tenho dificuldade em filtrar as informações, é todo dia gente trazendo informações de toda ordem, mas eu não estou escrevendo mais o livro, eu não trabalho mais no jornal, não tenho mais um veículo para publicar, então eu só atendo por educação e por cortesia, mas quase todos os dias eu encontro pessoas, ou me ligam dizendo olha eu tenho uma denúncia aqui e ali, mas ai eu digo não estou escrevendo.
Hoje você escreveria uma segunda versão do Ninho de Cobras?
Veja bem, na época eu escrevi o Ninho de Cobras pelo fato do momento, eu não retomaria o passado por que as pessoas que foram citadas antes já se foram, logo eu não tenho o direito de ficar tripudiando no mesmo assunto, é requentar demais. Mas se eu tivesse a oportunidade de escrever um livro pelos fatos de hoje, eu com toda certeza escreveria, só que tudo se tornou mais caro, mais difícil e não há a possibilidade econômica para escrever, mas tenho assuntos que dá para mais uns dois livros ainda.
Edgar Bueno fez um bom governo nesses últimos quatro anos?
Cascavel não precisa de prefeito para fazer um bom governo porque a prefeitura em si, o município, a população, ela é muito dedutiva. Eu acho que foi péssimo, porque não admito ver um município assim. Deveria ter aqui muitas obras federais, temos quatro deputados federais e não tem por quê? Porque falta articulação, então administrar do jeito que estão administrando, um contador ou um gerente faz. Tem que ter uma visão macro, uma visão maior. O governo do estado só pôs os pés aqui para anunciar algumas coisas, vamos ver se vai fazer, não fez ainda. Eu não votei nele, eu nunca votei no PT e Cascavel virou as costas para o governo federal, não usufruiu de nada. Eu desafio alguém que me mostre uma obra federal em Cascavel.
Você achou justa a sua reeleição?
Nesta última eleição tivemos um candidato de grande profissionalismo, porém jamais essa oligarquia iria admitir que José Lemos, um professor Capixaba que nem casa própria em Cascavel tem fosse prefeito da cidade. Mas eu não vou dizer que Edgar tenha sido um péssimo prefeito, ele apenas não respeitou leis, por exemplo, se é denunciado, responda pela denúncia não tem problema. Fazer obras não é demais, tem que fazer mesmo, o município precisa e tem dinheiro. Agora tem que fazer sem suspensão porque como que você vai confiar num cofre da prefeitura se tem muita denuncia de desvio, essa é a indignação.
O que você espera dele nesse novo mandato?
Não ser tão arrogante como nos outros, mas é coisa difícil porque o povo referendou, então o povo concorda com isso, mas eu espero que ele não seja tão arrogante como foi e lembre-se que ele é prefeito da cidade, ele não é dono da cidade e que ele se elegeu com a maioria dos votos, mas que teve setenta e poucas mil pessoas que são contra ele. Então cada atitude que ele vai tomar ele não pense naqueles que votaram nele porque aqueles votariam de qualquer maneira, ele pense que tem 73 mil pessoas que votaram contra e ele não pode decepcionar a estes, tem que pelo menos tentar cumprir o que prometeu.
Qual é o motivo das suas desavenças com o Edgar?
Eu fui amigo dele quando era dirigente esportivo de um time de futebol. 1982 ele foi candidato a prefeito e eu fui candidato a vereador de outro partido. Então em um sábado de manhã o Edgar estava fazendo um “adesivaço” da campanha dele e veio pra colocar propaganda no meu carro e eu disse: “Edgar, você pode colocar a propaganda no meu carro, mas depois que você for embora eu vou ter que tirar a propaganda porque eu sou candidato de outro partido, mas para não te constranger, pode deixar a propaganda que depois eu retiro”. Quando eu falei isso ele me empurrou com as duas mãos no peito e disse: “eu não preciso e não quero o seu voto”. Eu tentei explicar a minha posição e ele disse “eu não quero entender posição nenhuma, ou o cara é meu amigo ou o cara não é . E por coincidência naquela própria campanha eu obviamente pouco motivado, desci algumas críticas muito fortes contra ele, algumas críticas acredito que possam ter ajuda-do a impedir que ele pudesse ter sido prefeito já naquela época. A partir disso nunca mais ouve uma trégua até porque ele gosta de tripudiar. Ele ganha a eleição, mas não desarma o palanque, ele continua com o palanque armado desde 1982. Nenhuma eleição ele adminis-tra pra cidade, ele administra por grupo e persegue os adver-sários. Então infelizmente essa é a faceta dele que a gente não conseguiu mudar e nem tem por onde também.
“Ele ganha a eleição mas não desarma o palanque, ele continua com o palanque armado desde 1982”
Você já sofreu alguma ameaça vinda diretamente dele?
Olha, diretamente! Na ultima eleição ele moveu quatro processos contra mim e perdeu todas na justiça. Como ele perdeu esses processos restava a de desvio de material da ponte do Rio Iguati. Um guarda costas dele que também é seu motorista, esteve na emissora em que eu trabalhava e e falou “Olha, esse vagabundo desse Anselmo se viu livre do processo, mas nós vamos dar uma lição nele que é pra ele aprender”. Ai me falaram que ele havia estado lá e que era para eu me cuidar, andar armado, mas eu não quis. Passou uma semana e o meu carro foi encontrado incen-diado, não fizeram nem questão de esconder que foram eles que executaram o serviço. A polícia nem investigou. A Revista Imprensa que eu sempre faço, o próprio Edgar tem a “pachorra” de olhar as propagandas e ligar para os anunciantes mandando tirar.
Ele costuma dizer “Ou você tá do lado desse cara ou você tá do meu lado”, ou então, “Ah você está financiando a re-vista do cara que me critica, espero que você não precise da prefeitura”. Várias pessoas já me disseram “ah eu continuo te ajudando, mas deixa a propaganda fora”, eu não estou pedindo esmola eu quero fazer uma propaganda “infelizmente eu não posso por a propa-ganda porque se não a prefeitura vai me prejudicar”. Então esse tipo de coisa acontece, ele não dá trégua.
Você tem medo dessas ameaças?
Não, não tenho porque ter medo. Não nasci pra viver 200 anos, nasci pra viver 40, 50 ou 60, mas bem vividos com honra e dignidade. Já se foram 55 anos, mas de dignidade e honra. Eu não quero viver 80 anos de riqueza e fartura, não. Quero viver com honra e que amanhã ou depois os meus filhos não se envergonhem do pai que tiveram. E que eu não me envergonhe também.
“Tivemos políticos mais preparados nos tempos passados. Hoje se salva o “Frangão”, mas eu não sei se tem político bem preparado aqui não”.
Politicamente falando, Cascavel evoluiu em relação ao passado?
Politicamente ela não evoluiu, porque nós já tivemos políticos de melhor envergadura nessa cidade. Nós tivemos realmente governantes bem preparados. Eu considero um dos maiores políticos que Cascavel já teve até hoje o Fidelcino Tolentino. Ele foi deputado, vereador, prefeito e foi um dos homens que mais critiquei na minha vida, às vezes fui até injusto contra ele, mas ele jamais levantou um dedo pra me punir ou para me perseguir. Encontro ele na rua, cumprimento ele, às vezes até com constrangimento porque eu atormentei muito do Tolentino, mas acredito que foi um grande político. Antônio Mazureck foi excelente, o próprio Mario Pereira foi bom, mas foi embora porque não consegui se eleger. Tivemos políticos mais preparados nos tempos passados. Hoje se salva o Frangão, mas eu não sei se tem político bem preparado aqui não. Político de fibra mesmo eu não vejo, o que eu vejo é muito profissionalismo e apadrinhamento.
“Ele (Edgar) costuma dizer “Ou você tá do lado desse cara ou você tá do meu lado”. Ele não dá trégua”.
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| Texto de Maximiliane Veiga |

Oi moça esse é meu querido avo obrigado pelo seu reconhecimento
ResponderExcluirCorajoso
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