Herói sem caráter
Macunaíma é um herói
estranho e diferente dos convencionais, isto devido a sua personalidade e seu
caráter duvidoso, o personagem ora é bom, ora é mau, ao mesmo tempo é “esperto”
e ingênuo, é individualista, pois só pensa em si, durante toda a história foge
do trabalho e seu lema é “Ai que preguiça!”.
Mário de Andrade inicia o
livro Macunaíma (personagem central da obra) caracterizando-o com este trecho:
“No fundo do mato
virgem nasceu Macunaíma, herói de nossa gente. Era preto retinto e filho do
medo da noite. Houve um momento em que o silêncio foi tão grande escutando o
murmurejo do Uraricoera, que a índia Tapanhumas pariu uma criança feia. Essa
criança é que chamaram Macunaíma. Já na meninice fez coisas de sarapantar. De
primeiro passou mais de seis anos não falando. Se o incitavam a falar
exclamava: _ Ai que preguiça!...”.
Macunaíma, “o herói sem
nenhum caráter” é um típico brasileiro, descrito de forma sarcástica pelo
autor. Na sociedade é comum encontrarmos indivíduos que valorizam esta
“ausência” de índole, por isso é herói, mas sem nenhum caráter. Além de feio,
preguiçoso e medroso, ele também é mentiroso, exemplo disso é quando
engana o curupira, e é vingativo (jura vingança por terem-lhe oferecido
apenas as tripas para comer da caça que ele encontrou).
O menino quando criança era
chato e mimado, se não fizessem suas vontades chorava. Para confirmar destaca-se
o seguinte trecho: “E pediu para a mãe que largasse da mandioca ralando na
cevadeira e levasse ele passear no mato. A mãe não quis porque não podia [...]
choramingou o dia inteiro”.
A saída de Macunaíma para
São Paulo é o início da transformação pessoal do individuo e indicio da perca
de identidade cultural indígena, em que há a valorização do capital: “Meu
filho, cresce depressa pra você ir pra São Paulo ganhar muito dinheiro”.
Assim sua saída e a busca pela “Muiraquitã” também são exemplos do êxodo rural
e a industrialização da época (Após a Primeira Guerra Mundial o País diminuiu
consideravelmente sua exportação de café e houve a necessidade de investir na
indústria primária, nesta época ocorreu um rápido crescimento urbano).
Na época em que Macunaíma
foi publicado a sociedade estava em um período de constantes mudanças e
revolução: Além do aumento de industrias e comércios no Brasil (como foi citado
acima), também houve o desenvolvimento dos meios de comunicação e de
transporte, fatos esses, que influenciaram o fim da política “café com leite”
(alternância na presidência entre São Paulo e Minas Gerais), o aumento de
pensamentos que conflitavam as classes dominantes na imprensa e o próprio
modernismo.
O livro também exemplifica o
contexto racista da época, e a “superioridade” estética dos traços europeus,
quando Macunaíma e seus irmãos tomam banho em águas encantadas, o autor
demonstra que os próprios índios tinham preconceito sobre eles mesmos, através
de adjetivos preconceituosos ditos pelo próprio Macunaíma. Andrade mostra que
os irmãos consideraram a água “santa”: “Aquele buraco na lapa era a marca do
Sumé, do tempo em que andava pregando o evangelho de Jesus pra indiada
brasileira” (o trecho mostra como a cultura e o folclore indígena
foram afetados pela religiosidade europeia, e como os nativos conseguiram
adaptá-la incorporando novos conceitos a sua cultura).
“[...] Quando o herói
saiu do banho estava branco louro e dos olhos azuizinhos, água lavara o pretume
dele. E ninguém não seria capaz mais de indicar nele um filho da tribo retinta
dos Tapanhumas.
Nem bem Jiguê
percebeu o milagre, se atirou na marca do pezão de Sumé. Porém a água já estava
muito suja da negrura do herói e por mais que Jiguê esfregasse feito maluco
esfregando água pra todos os lados só conseguiu ficar da cor do bronze novo.
Macunaíma teve dó e consolou:
_ Olhe, mano Jiguê,
branco você ficou não, porém pretume foi-se e antes fanhoso que sem nariz.
Maanape então é que
foi se lavar, mas Jiguê esborrifara toda a água encantada para fora da cova.
Tinha só um bocado lá no fundo e Maanape conseguiu molhar só as palmas dos pés
e das mãos. Por isso ficou negro bem filho da tribo dos Tapanhumas. Só que as
palmas das mãos e dos pés dele são vermelhas por terem se limpado na água
santa”.
A citação a cima é exemplo
da ideologia predominante na época: o racismo, não só dos brancos sobre negros
e indígenas, mas também dos próprios que consideravam-se inferiores, inclusive
definindo sua cor como “sujeira”. Além dessa passagem a obra também apresenta várias
frases de Macunaíma, que evidenciam a perca da identidade cultural indígena e a
valorização da europeia, até mesmo na religião, como por exemplo: “Valei-me
Nossa Senhora, Santo Antonio de Nazaré!”.
O capítulo V Piaimã, apresenta uma das passagens mais interessantes do livro, quando ao
chegar em São Paulo, Macunaíma e seus irmãos se deparam com a “civilização”, e num
primeiro contato eles interpretam a cidade a partir de sua própria cultura:
“Que mundo de bichos! Que despropósito de papões roncando, mauaris juruparis
sacis e boitatás”, a frase dita pelo protagonista mostra como as “máquinas”
e a quantidade de pessoas (na época São Paulo possuía 1 milhão de habitantes)
“assustaram” Macunaíma, e este associou todo aquele “mundo estranho” a seu
folclore: “De manhãzinha ensinaram que todos aqueles piados berros cuquiadas
sopros roncos esturros não eram nada disso não,
eram cláxons campainhas apitos buzinas e tudo era maquina”.
Também no primeiro contato
do “herói” com São Paulo, Andrade demonstra como a religião indígena foi
desvalorizada e afetada no choque cultural com a grande cidade: “Três cunhãs
deram muitas risadas e falaram que isso de deuses era gorda mentira antiga, que
não tinha deus não”.
Outra parte interessante da
obra encontra-se no capítulo IX: Carta pras Icamiabas, aqui após
varias aventuras o herói retorna a São Paulo e resolve escrever pras
“Icamiabas” (mulheres de sua aldeia), na carta além de contar sua busca pela
“Muiraquitã” e suas aventuras, Macunaíma descreve de forma sátira como é a vida
na cidade (muitas pessoas, meios de transporte, cinema, lojas, etc.), as
“máquinas”, também critica a sociedade (desigualdades, saúde, política) e o
exagerado capitalismo paulista, tudo isso como se fosse “imperador”, e as
amazonas suas súditas.
No capitulo, Macunaíma
escreve a carta com uma linguagem diferente da que costuma falar, apesar de
alguns erros, o coloquialismo “tenta” dar lugar a forma culta, e Andrade
através de seu personagem, critica a discrepância entre a oralidade e a
escrita: “Falam numa língua e escrevem em outra”.
Em “a Pacuera de Oibê”, o herói e seus manos resolvem voltar “pra querência deles”, mas
voltam transformados, o índio que assustou-se em seu primeiro contato com a
cidade grande, agora volta para Amazonas triste: “Enxugou a lágrima, consertou
o beicinho tremendo”, e leva consigo o que mais o entusiasmou na sociedade
paulista: “O revólver Smith-Wesson, o relógio Patek e o casal de galinha
Legorne”.
Outra inovação de Andrade é
perceptível no epílogo, neste o leitor fica sabendo que a história
foi contada ao autor pelo papagaio de Macunaíma, assim Mário de Andrade seria
um narrador personagem, mas ausente, já que ele só aparece no final do livro, a
obra então aparente ter seu foco narrativo em terceira pessoa, mas considerando
o epílogo, esta teria seu foco narrativo em primeira pessoa:
“Tudo ele contou pro
homem e depois abriu asa rumo de Lisboa. E o homem sou eu, minha gente, e eu
fiquei pra vos contar a história. Por isso que vim aqui. Me acocorei em riba
destas folhas, catei meus carrapatos, ponteei na violinha e em toques rasgado
botei a boca no mundo cantando na fala impura as frases e os casos de
Macunaíma, herói da nossa gente”. Tem mais não”.
A partir desta breve análise
do livro Macunaíma, considerando além da rapsódia, o contexto histórico da
época e o próprio movimento modernista, é possível entender que a principal
preocupação de Mário de Andrade era a de buscar uma identidade cultural
brasileira, que na época era afetada pela “importação” de um modelo cultural
europeu, e subentende-se que este não era cabível a realidade oposta do país.
Trazendo as ideias do livro para o contexto
atual (não fazendo uma releitura da rapsódia, já que para isso a obra e o atual
contexto histórico necessitariam de uma análise bem mais detalhada), é
perceptível que a problemática modernista da época ocorre novamente hoje: a
globalização anula a “identidade nacional” e unifica as nações, havendo
atualmente a perca dessa singularidade não só no Brasil, mas na maioria dos
países, ocorrendo isso devido a evolução dos meios de comunicação, a industria
cultural e a alienação empregada na mídia a favor das ideologias dominantes.
O livro
Macunaíma é um livro do
escritor brasileiro Mario de Andrade (1893 – 1945 Um dos criadores do
Modernismo no Brasil, também é autor de “Amar, Verbo Intransitivo” e “A Escrava
que não é Isaura”, dentre outros). Publicado originalmente em 1928 e faz parte da
primeira fase do modernismo.
A história se destaca pela
originalidade da forma como descreve o povo indígena, diferentemente de José de
Alencar, por exemplo, em Iracema: “A virgem dos lábios de mel” (1865,
Romantismo). Apesar de as obras fazerem parte de outro contexto histórico e
período literário, Macunaíma representa a evolução na forma como os índios eram
apresentados, antes de forma utópica e romântica com sua cultura preservada,
agora de maneira debochada, e costumes afetados pela ideologia dominante na
época.
Além da inovação na forma de
caracterizar o povo indígena, Andrade também inova ao desenvolver seu texto com
linguagem totalmente coloquial (oposto dos períodos literários anteriores) e apesar
da desvalorização deste, provavelmente a intenção do autor e do movimento
(modernismo) é apontar a necessidade da criação de uma identidade cultural
brasileira, já que na época ainda valorizava-se muito a Europa (cultura, estilo
literário, música, educação, etc.), mesmo o Brasil sendo constituído também por
índios e descendentes de africanos, por isso Macunaíma está repleto de
personagens folclóricos, palavras africanas e indígenas, e o hibridismo
cultural.
Hibridismo este, que
resultou em uma história fantástica, em que o autor mescla o real e o
fantasioso (ora apenas na imaginação de Macunaíma, ora como se fosse
realidade). Assim Mario de Andrade compôs sua rapsódia adaptando o folclore, lendas,
costumes, a culinária, plantas e bichos de todas as regiões do Brasil,
misturando todas as manifestações culturais e religiosas, objetivando criar um
aspecto de unidade nacional, que diverge ainda hoje de nossa realidade.
Nenhum comentário:
Postar um comentário