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quarta-feira, 13 de novembro de 2013

Resenha - Renan Bini

Herói sem caráter


Macunaíma é um herói estranho e diferente dos convencionais, isto devido a sua personalidade e seu caráter duvidoso, o personagem ora é bom, ora é mau, ao mesmo tempo é “esperto” e ingênuo, é individualista, pois só pensa em si, durante toda a história foge do trabalho e seu lema é “Ai que preguiça!”.

Mário de Andrade inicia o livro Macunaíma (personagem central da obra) caracterizando-o com este trecho:


“No fundo do mato virgem nasceu Macunaíma, herói de nossa gente. Era preto retinto e filho do medo da noite. Houve um momento em que o silêncio foi tão grande escutando o murmurejo do Uraricoera, que a índia Tapanhumas pariu uma criança feia. Essa criança é que chamaram Macunaíma. Já na meninice fez coisas de sarapantar. De primeiro passou mais de seis anos não falando. Se o incitavam a falar exclamava: _ Ai que preguiça!...”.



Macunaíma, “o herói sem nenhum caráter” é um típico brasileiro, descrito de forma sarcástica pelo autor. Na sociedade é comum encontrarmos indivíduos que valorizam esta “ausência” de índole, por isso é herói, mas sem nenhum caráter. Além de feio, preguiçoso e medroso, ele também é mentiroso, exemplo disso é quando engana o curupira, e é vingativo (jura vingança por terem-lhe oferecido apenas as tripas para comer da caça que ele encontrou).

O menino quando criança era chato e mimado, se não fizessem suas vontades chorava. Para confirmar destaca-se o seguinte trecho: “E pediu para a mãe que largasse da mandioca ralando na cevadeira e levasse ele passear no mato. A mãe não quis porque não podia [...] choramingou o dia inteiro”.

A saída de Macunaíma para São Paulo é o início da transformação pessoal do individuo e indicio da perca de identidade cultural indígena, em que há a valorização do capital: “Meu filho, cresce depressa pra você ir pra São Paulo ganhar muito dinheiro”. Assim sua saída e a busca pela “Muiraquitã” também são exemplos do êxodo rural e a industrialização da época (Após a Primeira Guerra Mundial o País diminuiu consideravelmente sua exportação de café e houve a necessidade de investir na indústria primária, nesta época ocorreu um rápido crescimento urbano).

Na época em que Macunaíma foi publicado a sociedade estava em um período de constantes mudanças e revolução: Além do aumento de industrias e comércios no Brasil (como foi citado acima), também houve o desenvolvimento dos meios de comunicação e de transporte, fatos esses, que influenciaram o fim da política “café com leite” (alternância na presidência entre São Paulo e Minas Gerais), o aumento de pensamentos que conflitavam as classes dominantes na imprensa e o próprio modernismo.

O livro também exemplifica o contexto racista da época, e a “superioridade” estética dos traços europeus, quando Macunaíma e seus irmãos tomam banho em águas encantadas, o autor demonstra que os próprios índios tinham preconceito sobre eles mesmos, através de adjetivos preconceituosos ditos pelo próprio Macunaíma. Andrade mostra que os irmãos consideraram a água “santa”: “Aquele buraco na lapa era a marca do Sumé, do tempo em que andava pregando o evangelho de Jesus pra indiada brasileira” (o trecho mostra como a cultura e o folclore indígena foram afetados pela religiosidade europeia, e como os nativos conseguiram adaptá-la incorporando novos conceitos a sua cultura).


“[...] Quando o herói saiu do banho estava branco louro e dos olhos azuizinhos, água lavara o pretume dele. E ninguém não seria capaz mais de indicar nele um filho da tribo retinta dos Tapanhumas.

Nem bem Jiguê percebeu o milagre, se atirou na marca do pezão de Sumé. Porém a água já estava muito suja da negrura do herói e por mais que Jiguê esfregasse feito maluco esfregando água pra todos os lados só conseguiu ficar da cor do bronze novo. Macunaíma teve dó e consolou:

_ Olhe, mano Jiguê, branco você ficou não, porém pretume foi-se e antes fanhoso que sem nariz.

Maanape então é que foi se lavar, mas Jiguê esborrifara toda a água encantada para fora da cova. Tinha só um bocado lá no fundo e Maanape conseguiu molhar só as palmas dos pés e das mãos. Por isso ficou negro bem filho da tribo dos Tapanhumas. Só que as palmas das mãos e dos pés dele são vermelhas por terem se limpado na água santa”.



A citação a cima é exemplo da ideologia predominante na época: o racismo, não só dos brancos sobre negros e indígenas, mas também dos próprios que consideravam-se inferiores, inclusive definindo sua cor como “sujeira”. Além dessa passagem a obra também apresenta várias frases de Macunaíma, que evidenciam a perca da identidade cultural indígena e a valorização da europeia, até mesmo na religião, como por exemplo: “Valei-me Nossa Senhora, Santo Antonio de Nazaré!”.

O capítulo V Piaimã, apresenta uma das passagens mais interessantes do livro, quando ao chegar em São Paulo, Macunaíma e seus irmãos se deparam com a “civilização”, e num primeiro contato eles interpretam a cidade a partir de sua própria cultura: “Que mundo de bichos! Que despropósito de papões roncando, mauaris juruparis sacis e boitatás”, a frase dita pelo protagonista mostra como as “máquinas” e a quantidade de pessoas (na época São Paulo possuía 1 milhão de habitantes) “assustaram” Macunaíma, e este associou todo aquele “mundo estranho” a seu folclore: “De manhãzinha ensinaram que todos aqueles piados berros cuquiadas sopros roncos esturros não eram nada disso não,  eram cláxons campainhas apitos buzinas e tudo era maquina”.

Também no primeiro contato do “herói” com São Paulo, Andrade demonstra como a religião indígena foi desvalorizada e afetada no choque cultural com a grande cidade: “Três cunhãs deram muitas risadas e falaram que isso de deuses era gorda mentira antiga, que não tinha deus não”.

Outra parte interessante da obra encontra-se no capítulo IX: Carta pras Icamiabas, aqui após varias aventuras o herói retorna a São Paulo e resolve escrever pras “Icamiabas” (mulheres de sua aldeia), na carta além de contar sua busca pela “Muiraquitã” e suas aventuras, Macunaíma descreve de forma sátira como é a vida na cidade (muitas pessoas, meios de transporte, cinema, lojas, etc.), as “máquinas”, também critica a sociedade (desigualdades, saúde, política) e o exagerado capitalismo paulista, tudo isso como se fosse “imperador”, e as amazonas suas súditas.

No capitulo, Macunaíma escreve a carta com uma linguagem diferente da que costuma falar, apesar de alguns erros, o coloquialismo “tenta” dar lugar a forma culta, e Andrade através de seu personagem, critica a discrepância entre a oralidade e a escrita: “Falam numa língua e escrevem em outra”.

Em “a Pacuera de Oibê”, o herói e seus manos resolvem voltar “pra querência deles”, mas voltam transformados, o índio que assustou-se em seu primeiro contato com a cidade grande, agora volta para Amazonas triste: “Enxugou a lágrima, consertou o beicinho tremendo”, e leva consigo o que mais o entusiasmou na sociedade paulista: “O revólver Smith-Wesson, o relógio Patek e o casal de galinha Legorne”.

Outra inovação de Andrade é perceptível no epílogo, neste o leitor fica sabendo que a história foi contada ao autor pelo papagaio de Macunaíma, assim Mário de Andrade seria um narrador personagem, mas ausente, já que ele só aparece no final do livro, a obra então aparente ter seu foco narrativo em terceira pessoa, mas considerando o epílogo, esta teria seu foco narrativo em primeira pessoa:


“Tudo ele contou pro homem e depois abriu asa rumo de Lisboa. E o homem sou eu, minha gente, e eu fiquei pra vos contar a história. Por isso que vim aqui. Me acocorei em riba destas folhas, catei meus carrapatos, ponteei na violinha e em toques rasgado botei a boca no mundo cantando na fala impura as frases e os casos de Macunaíma, herói da nossa gente”. Tem mais não”.



A partir desta breve análise do livro Macunaíma, considerando além da rapsódia, o contexto histórico da época e o próprio movimento modernista, é possível entender que a principal preocupação de Mário de Andrade era a de buscar uma identidade cultural brasileira, que na época era afetada pela “importação” de um modelo cultural europeu, e subentende-se que este não era cabível a realidade oposta do país.
Trazendo as ideias do livro para o contexto atual (não fazendo uma releitura da rapsódia, já que para isso a obra e o atual contexto histórico necessitariam de uma análise bem mais detalhada), é perceptível que a problemática modernista da época ocorre novamente hoje: a globalização anula a “identidade nacional” e unifica as nações, havendo atualmente a perca dessa singularidade não só no Brasil, mas na maioria dos países, ocorrendo isso devido a evolução dos meios de comunicação, a industria cultural e a alienação empregada na mídia a favor das ideologias dominantes.

O livro

Macunaíma é um livro do escritor brasileiro Mario de Andrade (1893 – 1945 Um dos criadores do Modernismo no Brasil, também é autor de “Amar, Verbo Intransitivo” e “A Escrava que não é Isaura”, dentre outros). Publicado originalmente em 1928 e faz parte da primeira fase do modernismo.

A história se destaca pela originalidade da forma como descreve o povo indígena, diferentemente de José de Alencar, por exemplo, em Iracema: “A virgem dos lábios de mel” (1865, Romantismo). Apesar de as obras fazerem parte de outro contexto histórico e período literário, Macunaíma representa a evolução na forma como os índios eram apresentados, antes de forma utópica e romântica com sua cultura preservada, agora de maneira debochada, e costumes afetados pela ideologia dominante na época.

Além da inovação na forma de caracterizar o povo indígena, Andrade também inova ao desenvolver seu texto com linguagem totalmente coloquial (oposto dos períodos literários anteriores) e apesar da desvalorização deste, provavelmente a intenção do autor e do movimento (modernismo) é apontar a necessidade da criação de uma identidade cultural brasileira, já que na época ainda valorizava-se muito a Europa (cultura, estilo literário, música, educação, etc.), mesmo o Brasil sendo constituído também por índios e descendentes de africanos, por isso Macunaíma está repleto de personagens folclóricos, palavras africanas e indígenas, e o hibridismo cultural.
Hibridismo este, que resultou em uma história fantástica, em que o autor mescla o real e o fantasioso (ora apenas na imaginação de Macunaíma, ora como se fosse realidade). Assim Mario de Andrade compôs sua rapsódia adaptando o folclore, lendas, costumes, a culinária, plantas e bichos de todas as regiões do Brasil, misturando todas as manifestações culturais e religiosas, objetivando criar um aspecto de unidade nacional, que diverge ainda hoje de nossa realidade.

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