As gêmeas que sabem os
segredos das coxias
Entre ruídos, acessórios, fantasias, brigas, surubas,
amores, paixões, casinhos, lancinhos e outras coisitas mais, existe uma
personagem. Pouco conhecida, discreta, quase imperceptível, mas que tudo vê, em
histórias que mais parecem ficção do que realidade. A estrela do palco é, a
camareira de motel.
Primeiro um pouco de história, o que por sinal não foge
muito do tema, pois para camareira de motel o que não falta é a história para
contar.
A palavra motel surgiu em 1925 quando o arquiteto norte
americano Arthur Heineman projetou um hotel destinado a motoristas, em uma
rodovia que liga São Francisco a Los Angeles nos Estados Unidos. O público alvo
do lugar eram os motoristas, por isso o arquiteto associou os primeiros fonemas
de “motor”, dos carros aos últimos de hotel, criando a palavra motel. O projeto
levou o nome: Milestone Motel, e existe até hoje, mas atualmente com o nome
Motel Inn, o “inn” que acabou sendo adotado por vários estabelecimentos do
gênero.
Já no Brasil os motéis surgiram na década de 60 como um
local de estadia curta e exclusivo para encontros amorosos. Acredita-se que o
primeiro motel do país foi o “Motel Playboy” construído em uma estrada que dá
acesso a Itaquaquecetuba, em São Paulo.
Seja no Motel Inn, nos Estados Unidos, no Motel Playboy, em
São Paulo, ou em qualquer lugar deste mundo, os motéis podem ser comparados a
um livro de crônicas, rico em detalhes e principalmente em histórias insólitas.
E nesse conto há um personagem que pouco é visto, como um figurante, mas que
renderia papel principal. São as camareiras de motel que desta vez tornaram-se
a protagonista do caso.
Gêmeas, 42 anos, 14 anos na profissão e muito bom humor.
Essas são Cleuza e Neuza Deitos, as irmãs cascavelenses, que de diferentes têm
apenas o turno em que trabalham. Cleuza trabalha a noite em um motel de
Cascavel e Neuza durante o dia no mesmo estabelecimento. Sem tabus e com um
sorriso fácil e contagiante, elas contam um pouquinho da rotina da profissão
que ninguém vê.
“Eu gosto muito do meu trabalho, não sinto mais vergonha do
que eu faço.” É o que exclama as duas, que parecem combinar até na hora de
responder as perguntas. Perguntas inclusive que saíram do papel e tomaram
liberdade, assim como a liberdade que se tem entre as quatro paredes de um
motel, ou não, talvez um pouco menos, até porque o que acontece por lá... Só as
camareiras para contar.
Não importa quem é o cliente, o atendimento é sempre o
mesmo, cordial e eficaz. Elas levam o trabalho a sério e o comparam a qualquer
outro serviço, ousam até em afirmar que o trabalho é muito mais difícil do que
as pessoas pensam. “O pessoal acha que ficamos fazendo o que no motel? Nós
ficamos na recepção, quietinhas, sem ver ninguém e sem ser vistas, apenas
escutando o barulho dos outros”, ressalta Cleuza com uma risada contagiante.
No motel onde as irmãs trabalham nem as regras as poupam de
vivenciar situações constrangedoras, afinal num lugar em que regras não sem bem
vindas é um desafio não viver o inusitado. Cleuza e Neuza, como funcionárias
antigas revezam as funções no local. Às vezes, recepcionistas, às vezes
camareiras. Mas tudo rende um causo. Como camareiras o caldo da sopa de
conversas engrossa um pouco. Na profissão elas ficam responsáveis pela limpeza
dos quartos, abastecimento de mantimentos nas suítes e eventuais atendimentos
emergenciais.
Emergência! Como a o dia que as duas não esquecem. Era turno
de trabalho da Cleuza, mas a história rendeu a todo o pessoal até a Lupa ver.
Casal, novo, apaixonado, e cheio de ideiazinhas na cabeça. Entraram, sem ser
vistos, como todos os outros, pegaram a chave e foram para uma noite de amor,
desta vez um pouco diferente. O motel, assim como a maioria desses locais vende
acessórios eróticos, dentre eles, as famosas algemas, que desta vez prenderam o
casal a uma situação constrangedora. O casal cheio de amor resolveu naquela
noite ousar. O rapaz, antes desconhecido hoje um astro anônimo do cômico
erótico, algemou a acompanhante na cama, só que uma pequena falha aconteceu, a
algema não abria, e o casal se desesperou.
A jovem começou gritar, e o rapaz rapidamente ligou para a recepção
pedir ajuda a quem? As camareiras claro, e lá foi a Cleuza, já rindo a caminho
da cena. No quarto escuro, ouviram apenas os gritos da mocinha pedindo socorro,
que em desespero achou que ficaria aprisionada ao fetiche. Cleuza, assim como
tira doce de uma criança, tirou as algemas da jovem, que chorando agradeceu a
camareira. E o causador de tudo isso? “O bonitão se escondeu na garagem do
motel, porque ficou com vergonha da gente”, lembra Cleuza que até hoje ri da
história.
Neuza, um pouco mais tímida, hesita em contar sobre o que
vê. Delicada tem receio de constranger o que já a constrangeu. Mas conta.
“Outro dia, as meninas tiveram que ir ao quarto desligar a banheira de hidromassagem
porque o homem passou mal. É um absurdo.” Um pouco mais confiante, continua. “E outra
vez o cliente pediu para irmos desligar o aquecedor. Chegando lá, batemos na
porta, e ao ter permissão para entrar nos deparamos com o casal no bem bom, que
sequer parou o que faziam nos receber.” E o que fizeram? Pergunta a repórter
ingênua. “Não fizemos nada, abaixamos a cabeça e continuamos, só temos isso a
fazer”, completa Neuza, com bom humor.
Já nos quartos, o cenário é de comédia romântica, próteses,
as algemas já citadas no caso do casal voraz, brinquedinhos impossíveis de
descrever nessas decentes linhas são vistos frequentemente. Mas como na cabeça do
ser humano sempre há espaço para mais, coube no lixeiro de uma das suítes, uma
cenoura. “Sabe-se lá para que usaram aquilo, mas que eu ri, eu ri”, detalha
Cleuza que costuma encontrar um pouco mais. “Quando encontrei a maconha, não
sabia o que fazer. Entregar para o cliente? Jogar no lixo? Vender? É poderia
ter rendido um dinheirinho, mas jamais faria isso, mandei mesmo é para o lixo,
sentiu falta quem perdeu.” Termina Cleuza.
Mas, como todo relacionamento tem suas desavenças, no motel
não seria diferente. “Não sei por que os casais chegam aqui pra fazer coisa
boa, e saem brigando, vai saber o que acontece. Deve ser a cerveja”, conta
Neuza que afirma ser rotineira as discussões entre os casais. Em certos
momentos ultrapassa as paredes e ecoa pelos corredores, em outras chega à
recepção, em frente aos funcionários que ficam imutáveis diante da discussão ou
em outras vezes separa o casal. “Acontece sempre do casal brigar e um ficar no
quarto e outro ir embora, vai entender.” Continua indagando Neuza em sua ternura.
Ou o gênero da cena pode ser policial, como nos casos em que
os casais não pagam e deixam o carro, o celular, pertences pessoais como
garantia, caso contrário, “polícia neles, chamamos a polícia se arrumam
confusão e o seguranças daqui nos protegem, porque as vezes ficamos até com
medo.” Descreve Neuza sobre os espinhos da rosa.
Há também as situações desagradáveis, pessoas que em sua
falta de educação as tratam com desrespeito, ou aqueles que em sua cara de pau
as convidam para a orgia. Essa que pelo visto não tem limites. “Ishe vem tudo
quanto é tipo de casal, aqui. Homem, mulher, os dois, mais um, três, um monte,
entram ai e fazem uma bagunça.” Conta as duas que afirmam as vezes escutar
ruídos das loucuras. “A gente acha que essas coisas obscenas existem somente em
filme pornô, mas não é não, isso tem também na vida real.” Resume Cleuza, sem
poupar.
Ou ainda as cenas de final de novela. “Tem um homens que são
muito gentis, ligam pedem decorações incríveis só para agradar as mulheres,
tudo fica lindo.” Lembra com encanto a romântica Neuza.
No entanto, além das histórias divertidas é preciso conviver
com o mundo lá fora. A profissão ainda causa estranheza e em certos momentos
constrange mais do que as situações no motel. “Antigamente éramos mais discriminadas.
Ao falar que trabalhávamos em motel as pessoas já nos olhavam diferente.” Conta
Neuza. “Quando eu pegava ônibus para trabalhar, as pessoas olhavam para mim com
ar de desprezo, me discriminando pelo meu trabalho.” Afirma Cleuza. “Mas eu não
tenho vergonha, já tive muito mais constrangimento em falar onde trabalho, mas
hoje não ligo mais para isso. É um trabalho digno como qualquer outro e eu
gosto do que faço.” Exclama as duas.
E é com essa alegria que elas continuam. “Nunca pensei em
trabalhar com isso, mas hoje somos uma família, o ambiente de trabalho é ótimo,
meus filhos participam das confraternizações de fim de ano, meu marido aceita
tranquilamente.” Conclui orgulhosa, Neuza Deitos. “Gosto muito daqui e não
quero sair, esse lugar é ótimo, todo mundo é gentil, sou feliz no meu
trabalho.” Finaliza, como sempre bem humorada, Cleuza Deitos. Ao fim de uma
prosa que parecia não querer findar, elas brincam que ainda terão muitas
histórias para contar, afinal depende o que vai acontecer no próximo
expediente.
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| Texto de Rebeca Branco |

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