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segunda-feira, 20 de janeiro de 2014

Deitos no motel - Rebeca Branco



As gêmeas que sabem os segredos das coxias



Entre ruídos, acessórios, fantasias, brigas, surubas, amores, paixões, casinhos, lancinhos e outras coisitas mais, existe uma personagem. Pouco conhecida, discreta, quase imperceptível, mas que tudo vê, em histórias que mais parecem ficção do que realidade. A estrela do palco é, a camareira de motel. 
Primeiro um pouco de história, o que por sinal não foge muito do tema, pois para camareira de motel o que não falta é a história para contar.


A palavra motel surgiu em 1925 quando o arquiteto norte americano Arthur Heineman projetou um hotel destinado a motoristas, em uma rodovia que liga São Francisco a Los Angeles nos Estados Unidos. O público alvo do lugar eram os motoristas, por isso o arquiteto associou os primeiros fonemas de “motor”, dos carros aos últimos de hotel, criando a palavra motel. O projeto levou o nome: Milestone Motel, e existe até hoje, mas atualmente com o nome Motel Inn, o “inn” que acabou sendo adotado por vários estabelecimentos do gênero.



Já no Brasil os motéis surgiram na década de 60 como um local de estadia curta e exclusivo para encontros amorosos. Acredita-se que o primeiro motel do país foi o “Motel Playboy” construído em uma estrada que dá acesso a Itaquaquecetuba, em São Paulo.


Seja no Motel Inn, nos Estados Unidos, no Motel Playboy, em São Paulo, ou em qualquer lugar deste mundo, os motéis podem ser comparados a um livro de crônicas, rico em detalhes e principalmente em histórias insólitas. E nesse conto há um personagem que pouco é visto, como um figurante, mas que renderia papel principal. São as camareiras de motel que desta vez tornaram-se a protagonista do caso.


Gêmeas, 42 anos, 14 anos na profissão e muito bom humor. Essas são Cleuza e Neuza Deitos, as irmãs cascavelenses, que de diferentes têm apenas o turno em que trabalham. Cleuza trabalha a noite em um motel de Cascavel e Neuza durante o dia no mesmo estabelecimento. Sem tabus e com um sorriso fácil e contagiante, elas contam um pouquinho da rotina da profissão que ninguém vê.


“Eu gosto muito do meu trabalho, não sinto mais vergonha do que eu faço.” É o que exclama as duas, que parecem combinar até na hora de responder as perguntas. Perguntas inclusive que saíram do papel e tomaram liberdade, assim como a liberdade que se tem entre as quatro paredes de um motel, ou não, talvez um pouco menos, até porque o que acontece por lá... Só as camareiras para contar.


Não importa quem é o cliente, o atendimento é sempre o mesmo, cordial e eficaz. Elas levam o trabalho a sério e o comparam a qualquer outro serviço, ousam até em afirmar que o trabalho é muito mais difícil do que as pessoas pensam. “O pessoal acha que ficamos fazendo o que no motel? Nós ficamos na recepção, quietinhas, sem ver ninguém e sem ser vistas, apenas escutando o barulho dos outros”, ressalta Cleuza com uma risada contagiante.


No motel onde as irmãs trabalham nem as regras as poupam de vivenciar situações constrangedoras, afinal num lugar em que regras não sem bem vindas é um desafio não viver o inusitado. Cleuza e Neuza, como funcionárias antigas revezam as funções no local. Às vezes, recepcionistas, às vezes camareiras. Mas tudo rende um causo. Como camareiras o caldo da sopa de conversas engrossa um pouco. Na profissão elas ficam responsáveis pela limpeza dos quartos, abastecimento de mantimentos nas suítes e eventuais atendimentos emergenciais.


Emergência! Como a o dia que as duas não esquecem. Era turno de trabalho da Cleuza, mas a história rendeu a todo o pessoal até a Lupa ver. Casal, novo, apaixonado, e cheio de ideiazinhas na cabeça. Entraram, sem ser vistos, como todos os outros, pegaram a chave e foram para uma noite de amor, desta vez um pouco diferente. O motel, assim como a maioria desses locais vende acessórios eróticos, dentre eles, as famosas algemas, que desta vez prenderam o casal a uma situação constrangedora. O casal cheio de amor resolveu naquela noite ousar. O rapaz, antes desconhecido hoje um astro anônimo do cômico erótico, algemou a acompanhante na cama, só que uma pequena falha aconteceu, a algema não abria, e o casal se desesperou.  A jovem começou gritar, e o rapaz rapidamente ligou para a recepção pedir ajuda a quem? As camareiras claro, e lá foi a Cleuza, já rindo a caminho da cena. No quarto escuro, ouviram apenas os gritos da mocinha pedindo socorro, que em desespero achou que ficaria aprisionada ao fetiche. Cleuza, assim como tira doce de uma criança, tirou as algemas da jovem, que chorando agradeceu a camareira. E o causador de tudo isso? “O bonitão se escondeu na garagem do motel, porque ficou com vergonha da gente”, lembra Cleuza que até hoje ri da história.


Neuza, um pouco mais tímida, hesita em contar sobre o que vê. Delicada tem receio de constranger o que já a constrangeu. Mas conta. “Outro dia, as meninas tiveram que ir ao quarto desligar a banheira de hidromassagem porque o homem passou mal. É um absurdo.”  Um pouco mais confiante, continua. “E outra vez o cliente pediu para irmos desligar o aquecedor. Chegando lá, batemos na porta, e ao ter permissão para entrar nos deparamos com o casal no bem bom, que sequer parou o que faziam nos receber.” E o que fizeram? Pergunta a repórter ingênua. “Não fizemos nada, abaixamos a cabeça e continuamos, só temos isso a fazer”, completa Neuza, com bom humor.


Já nos quartos, o cenário é de comédia romântica, próteses, as algemas já citadas no caso do casal voraz, brinquedinhos impossíveis de descrever nessas decentes linhas são vistos frequentemente. Mas como na cabeça do ser humano sempre há espaço para mais, coube no lixeiro de uma das suítes, uma cenoura. “Sabe-se lá para que usaram aquilo, mas que eu ri, eu ri”, detalha Cleuza que costuma encontrar um pouco mais. “Quando encontrei a maconha, não sabia o que fazer. Entregar para o cliente? Jogar no lixo? Vender? É poderia ter rendido um dinheirinho, mas jamais faria isso, mandei mesmo é para o lixo, sentiu falta quem perdeu.” Termina Cleuza.


Mas, como todo relacionamento tem suas desavenças, no motel não seria diferente. “Não sei por que os casais chegam aqui pra fazer coisa boa, e saem brigando, vai saber o que acontece. Deve ser a cerveja”, conta Neuza que afirma ser rotineira as discussões entre os casais. Em certos momentos ultrapassa as paredes e ecoa pelos corredores, em outras chega à recepção, em frente aos funcionários que ficam imutáveis diante da discussão ou em outras vezes separa o casal. “Acontece sempre do casal brigar e um ficar no quarto e outro ir embora, vai entender.” Continua indagando Neuza em sua ternura.

Ou o gênero da cena pode ser policial, como nos casos em que os casais não pagam e deixam o carro, o celular, pertences pessoais como garantia, caso contrário, “polícia neles, chamamos a polícia se arrumam confusão e o seguranças daqui nos protegem, porque as vezes ficamos até com medo.” Descreve Neuza sobre os espinhos da rosa.


Há também as situações desagradáveis, pessoas que em sua falta de educação as tratam com desrespeito, ou aqueles que em sua cara de pau as convidam para a orgia. Essa que pelo visto não tem limites. “Ishe vem tudo quanto é tipo de casal, aqui. Homem, mulher, os dois, mais um, três, um monte, entram ai e fazem uma bagunça.” Conta as duas que afirmam as vezes escutar ruídos das loucuras. “A gente acha que essas coisas obscenas existem somente em filme pornô, mas não é não, isso tem também na vida real.” Resume Cleuza, sem poupar.


Ou ainda as cenas de final de novela. “Tem um homens que são muito gentis, ligam pedem decorações incríveis só para agradar as mulheres, tudo fica lindo.” Lembra com encanto a romântica Neuza.


No entanto, além das histórias divertidas é preciso conviver com o mundo lá fora. A profissão ainda causa estranheza e em certos momentos constrange mais do que as situações no motel. “Antigamente éramos mais discriminadas. Ao falar que trabalhávamos em motel as pessoas já nos olhavam diferente.” Conta Neuza. “Quando eu pegava ônibus para trabalhar, as pessoas olhavam para mim com ar de desprezo, me discriminando pelo meu trabalho.” Afirma Cleuza. “Mas eu não tenho vergonha, já tive muito mais constrangimento em falar onde trabalho, mas hoje não ligo mais para isso. É um trabalho digno como qualquer outro e eu gosto do que faço.” Exclama as duas.


E é com essa alegria que elas continuam. “Nunca pensei em trabalhar com isso, mas hoje somos uma família, o ambiente de trabalho é ótimo, meus filhos participam das confraternizações de fim de ano, meu marido aceita tranquilamente.” Conclui orgulhosa, Neuza Deitos. “Gosto muito daqui e não quero sair, esse lugar é ótimo, todo mundo é gentil, sou feliz no meu trabalho.” Finaliza, como sempre bem humorada, Cleuza Deitos. Ao fim de uma prosa que parecia não querer findar, elas brincam que ainda terão muitas histórias para contar, afinal depende o que vai acontecer no próximo expediente.


Texto de Rebeca Branco


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