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quarta-feira, 4 de dezembro de 2013

Tecnologia e Educação - Renan Bini

A tecnologia deve 
ser utilizada de 
forma a ser mais 
que apenas uma 
nova maneira de 
maquiar velhas 
práticas 
educacionais. 
Ela deve estar a 
serviço do 
construtivismo


A era digital



A internet exerce um enorme fascínio sobre a humanidade. A industria de entretenimento já a descobriu a mais de duas décadas, depois veio o comércio, a comunicação, os games, os portais de notícia, as redes sociais. Mas considerando as instituições educacionais, a inclusão da mesma ainda está em processo de adaptação, talvez pelo preconceito de alguns profissionais: ela foge um pouco da metodologia tradicional de ensino. Outro fator é a falta de preparação sobre “como lidar” com as novas tecnologias e em que atividades elas podem ser incluídas em sala de aula.

Jovens empreendedores viram seus investimentos iniciais crescerem “infinitamente” com suas empresas (facebook, Yahoo! entre outras). Um fato que comprova o fascínio do ser humano pela internet, e sua fugaz propagação comparada a outras mídias: Foram 38 anos até que o rádio atingisse 50 milhões de usuários no mundo e 16 para que o computador atingisse o mesmo número. A televisão levou 13 anos, e a Internet somente 4.

Para Levy, em seu livro sobre cybercultura, o ciberespaço constitui novas e outras formas de comunicação dentro da cultura tanto econômica, política, social e humana. Devemos reconhecer as mudanças que essa cultura de tecnologia vem trazendo para a sociedade, e à que extensão ela atinge para a vida social e cultural.

Pensar na cibercultura de forma crítica é pensar na forma de exploração econômica ou a que nem todos tenham acesso a ela, mas isso, não deve interromper as transformações culturais que ela se aplica em todos os sentidos. Trata-se também acerca de novas formas artísticas, relação com o conhecimento, e com a formação e educação, a cidade e democracia, e a assistência a dos problemas da exclusão e desigualdade, da cultura em si.



A importância da tecnologia como instrumento de ensino

 Para que a educação possa ser de qualidade, a comunicação sem barreiras na escola é imprescindível, assim objetivando a comunicação de maneira adequada,  é necessária a afetividade entre professor-aluno, sendo esta, uma grande ferramenta para o professor, já que o aluno se sentirá confortável e confiante ao desenvolver seus talentos.

Após formar uma relação afetiva com o aluno, o professor tem a necessidade de romper mais uma barreira escolar: a do tradicionalismo. A inovação é necessária. E a tecnologia pode ser incluída em sala de aula como recurso didático, através: do retroprojetor, do Datashow, da TV e o DVD por exemplo, proporcionando aos aluno aulas mais atrativas, também facilita o trabalho do professor.

Para a aluna do quinto ano do CEJA (Colégio Estadual José de Alencar) Tayná, o uso dessas tecnologias é fundamental. “Apesar de a TV-pendrive e o Datashow não funcionar sempre, é legal! Quando os alunos recebem alguma coisa nova eles prestam mais atenção na aula. Quando tem algum vídeo, a aula é mais interessante do que quando só o professor fala lá na frente”, afirma.

A própria tecnologia é um incentivo ao aluno querer que ela seja anexada nos processos de ensino, mas apesar de toda evolução tecnológica, o primeiro professor ainda se sentiria em casa, caso houvesse a possibilidade de adentrar em uma sala de aula atualmente, já que mudanças na metodologia e nos processos educacionais são praticamente inexistentes.



Quando funcionam...

Desde o início da década de noventa, o governo tem investido no aparelhamento das escolas públicas com a implantação de Laboratórios de Informática. Assim a partir do início dessa década, a maioria das instituições educacionais já possuíam essas salas, mas com um histórico de uso quase sempre ruim. O que é o caso do CEJA. A professora que utilizava o laboratório de informática no momento da visita relata que já perdeu aulas inteiras levando os alunos no local, mas por os equipamentos não funcionarem ou estarem muito lentos, não conseguiu aplicar a atividade planejada. Segundo a professora, felizmente o laboratório da escola está em boas condições.

As pedagogas Salete Elker Senn e Noeli Aparecida da Silva compartilham a opinião de Tayná. Elas acreditam que a aula é muito mais interessante quando há a inclusão tecnológica. Apesar deste fato e do constante investimento por parte do governo estadual em novas tecnologias (o último investimento foi a doação de tablets a professores do ensino médio), não há manutenção.

Diferentemente do laboratório, a maioria das “TVs Pen drives” não funcionam mais. “Além de investimentos, as escolas públicas deveriam receber recursos para a manutenção desses recursos. A maior parte das televisões já estão com defeito, não leem mais o pen drive. Então o que mais precisamos antes de receber mais equipamentos é a manutenção dos recursos já existentes”, afirma Noeli.



Inovação em sala de aula

O que se vê hoje na área de tecnologia da educação é apenas a tentativa de “automatizar o ensino”, ou seja, parte-se do pressuposto que o atual modelo educacional não apresenta falhas e não há a necessidade de transforma-lo a fins de torná-lo mais eficiente. Portanto há a necessidade da retificação total da educação, repensando fundamentalmente os princípios educacionais, reestruturando-os radicalmente.

O problema no modelo educacional atual, talvez seja a maneira como ocorre a formação do professor. Os profissionais da educação não aprendem a ser professores apenas no curso superior (pedagogia e licenciaturas...), e sim com todos os seus próprios professores, desde a primeira série escolar até o último ano da faculdade, e  reproduzem além dos conhecimentos curriculares, e as técnicas, sua subjetividade e ideologias que assimilou durante toda a sua formação. Sendo réplicas ligeiramente modificadas de outros professores, esse é o motivo de a estrutura educacional ser a mesma no Brasil desde a época dos Jesuítas, e a não aceitação do construtivismo e das novas metodologias (ambos discutidos na reportagem anterior).

Assim como a sociedade, a tecnologia e os alunos (que estão sempre em constante transformação, e cada vez mais complexos), também deve ser os professores e o modelo educacional: quebrar paradigmas e se adaptar ao mundo moderno, a começar criando seu próprio estilo e metodologia (singular) e não se prender a aquilo que dominam.

Antonio José Carlos, em seu artigo “Professor x Inovação” defende a mudança. “Já não precisamos de professores que apenas tragam as informações para nós, o Google é mais rápido e eficaz nessa função. Não precisamos mais de lousa, ou mesmo de livros, para apenas copiar textos e depois reproduzir em provas e trabalhos, pois um simples CTRL+C seguido de um CTRL+V faz isso por nós. Não podemos ficar 50 minutos oferecendo nossa atenção integral a um professor que faz um monólogo triste sobre um tema que não nos interessa; nós queremos mais ação, mais rapidez, mais objetividade, mais interatividade, mais mobilidade, mais socialização, mais desafios”, relata.

Assim para o autor, o uso pedagógico dos computadores e das novas tecnologias não deve ser entendido como “uma nova maneira de maquiar velhas práticas educacionais”, mas sim uma opção para romper com essas práticas, possibilitando a mobilidade de informação, e a mobilidade dos alunos (rompendo as barreiras de espaço e tempo através da internet).

As novas tecnologias não cabem no espaço pedagógico restrito a “velha escola”, para a professora e filósofa Janelucy Penharvel, elas demandam de uma nova escola e de um professor renovado. Talvez por isso o uso destas, tornou-se um fracasso em muitas escolas. Segundo Antonio: “A escola tornou-se uma ilha de exclusão, um museu pedagógico de velharias didáticas. E esta ilha está afundando rapidamente no meio do oceano das novas tecnologias, novas metodologias de aprendizagem e novas práticas didáticas”.



Artigo de opinião: A escola como responsável do letramento digital



Fazemos parte de uma sociedade que exige cada vez mais de nós: a especialização constante para não perder espaço no mercado de trabalho, jornadas trabalhistas estressantes em que é necessário “produzir” cada vez mais em menos tempo, distâncias físicas maiores devido ao constante crescimento urbano, fatores esses, que tornam muitas vezes, impossível a investigação da veracidade dos conteúdos expostos na mídia e na internet, tornando-nos suscetíveis a opiniões de terceiros, como portais de notícias por exemplo.

A sociedade está gradativamente perdendo a criticidade diante das novas tecnologias, sendo que alguns padrões comportamentais como a rigidez e a aprendizagem sofrem alterações. As fontes de internet e computadores devem funcionar não somente como forma de auxílio no aprendizado, mas também como meio de leitura.

Os profissionais midiáticos hoje utilizam de bases racionais (persuasão) e irracionais (emoção) para transmitir ao público sua opinião. Assim a mensagem (inserida em todos os meios de comunicação, inclusive na internet) não chega “pura” a seus receptores, mas sim repleta de informações ideológicas (resultado da subjetividade dos profissionais e as intenções políticas e econômicas de cada empresa).

Portanto cabe a escola o papel de formar indivíduos críticos também para as novas mídias, utilizando-as também como recursos de “leitura” e “interpretação”: o aluno deve entender que o conteúdo em que ele acessa não está nulo de opinião, assim o professor deve auxilia-lo a “ler” também as informações pressupostas e subentendidas, ao contrário, a perca de criticidade será cada vez maior.

O problema da exclusão digital não se resolve apenas comprando computadores para a população carente e ensinando-os um determinado software, além disso, também é necessário que haja o letramento digital, sendo este: saber utilizar as novas tecnologias, saber acessar informações por meio delas, compreendê-las, utilizá-las e com isso mudar a consciência crítica e agir de forma positiva na vida pessoal e coletiva.
O letramento digital como a alfabetização, também deve acontecer no âmbito escolar, já que atualmente este é um dos meios mais acessíveis a maioria da população, e de fácil aplicação para políticas públicas, a partir deste letramento digital aos alunos de escolas públicas, a nova geração estará preparada para os impactos que as facilidades na internet podem causar, com a formação de leitores críticos da internet, estará vencida uma etapa na exclusão digital. 

Texto de Renan Bini

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