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terça-feira, 18 de março de 2014

Pare tudo que meu carrão envenenado está passando - Silmara Santos

 
De uma época de ditaduras, a herança são os automóveis antigos

A porta se abre e ao lado direito é a cozinha, o chão é preto e branco, uma geladeira vermelha ao fundo revela o visual retrô do apartamento. Seguindo pela sala, a esquerda está uma Lambretta, uma paixão que compõe o visual da casa.

Em julho de 1977, foi criado em Curitiba o Veteran Car Clube do Paraná, que mesmo com poucos adeptos ainda existe até hoje. Como forma de preservar e beneficiar o antigo mobilismo.

Daniel Toledo, neto de um dos fundadores abre as portas de sua residência, localizada na área central de Cascavel, para contar um pouco mais sobre esse hobby e o contato desde criança com o Antigo Mobilismo, já que o avô materno foi um dos fundadores do clube.

A residência é norteada de objetos que remetem aos anos 30 até artigos de decoração atuais.

“Em verdade minha história com o antigo mobilismo, vem desde antes do meu nascimento, por parte do meu avô materno”.

Da família de Daniel, muitos se tornaram adeptos, dentre eles, o mesmo é um colecionador à 20 anos, possui 9 veículos de coleção.

O primeiro carro que Daniel teve e no qual aprendeu a dirigir, aos 19 anos, foi um Passat 1983, do qual o padrasto comprou 0 km, o veículo está hoje com 87 mil km de rodagem. Esse carro está armazenado em um barracão junto com outros carros. “Não faço questão nenhuma de andar, porque justamente a intenção é preservar, deixar longe de perigos externos”.

Quando uma coleção é iniciada, raramente há disponibilidade de espaço para armazenar esses veículos, é quando entra o papel dos parentes e amigos que ajudam com suas garagens.

“Meu avô também sofria do mesmo problema que sofrem vários colecionadores, guardar um carro não é fácil, muito menos de esconder”.

No processo de restauro de um veículo, cada peça tem sua história, “um exemplo clássico disto é uma Caravan 1976, que sofreu com a ação do tempo, apesar de ter sido de um único dono. Têm 49 mil quilômetros, mas, como não foi devidamente preservada, está com a pintura desgastada.

Há muitas histórias que envolvem um carro de coleção, no caso Caravan não possui o retrovisor de fábrica do lado do passageiro, uma peça original que após 30 anos é muito difícil de encontrar para reposição.

“Existe uma borracharia no bairro Floresta, um amigo passou e viu o retrovisor em uma Kombi. Em outra ocasião esse mesmo amigo me levou até lá para confirmar se a peça era original de fábrica, ofereceu ao proprietário cerca de R$30,00 e um retrovisor novo. O proprietário sabendo do item valioso, disse que não venderia por menos de R$150,00, fiquei constrangido e comecei a chamar por meu amigo. Na pressa de vender ou não o borracheiro acabou cedendo a oferta e vendeu o retrovisor”.

Como cada peça tem um valor sentimental e de mercado muito elevado pela raridade e dificuldade de se encontrar, existe um mercado paralelo ao original de fábrica, com valores menores e peças sobre encomenda, mas para colecionadores que prezam pela originalidade, esse tipo de peça é usado somente em últimos casos.

Ele conta que seu avô tinha um Impala 1959, americano, com cauda, que comprou de uma viúva. Levou para casa guinchado. Pois, antes de tentar ligar um veículo antigo, tem uma série de cuidados a se tomar, o prejuízo de se causar algum dano para o motor pode ser irreparável. Tinha corrente elétrica, a bomba de combustível estava em perfeito estado, como ele sabia que tudo estava funcionando encontrava qual era o problema do carro. Cerca de uma semana depois da compra do carro, ele estava com insônia e desceu na garagem para mexer no motor, viu um espírito no banco do motorista. Nessa ocasião ele sentou no banco do caroneiro conversou com aquela pessoa que ali estava, acreditando ser o falecido dono do veículo e orou por ele, pediu para que seguisse o caminho e se desprendesse das coisas materiais, após isso ele voltou para o quarto dormir. Na manhã seguinte foi até a garagem e novamente tentou ligar o veículo, que funcionou sem nenhum problema.

“Pode se concluir que todo carro tem uma trajetória a ser respeitada”.

Um colecionador adota um carro como se fosse um filho, o propósito de preservar é o mesmo princípio de cuidar de uma criança. Para cuidar de um filho leva-se ao médico, não se deixa brincar em locais de risco. Um automóvel é tratado da mesma maneira, cuidando para não passar em buracos, não se deixa em locais que possam sofrer a ação do tempo, entre muitos outros cuidados.

“Em relação aos carros de uma maneira geral, sempre tem proposta, mas as pessoas não têm noção nenhuma de cuidados ou de valores. Certa vez eu recebi proposta de trocar meu Passat em uma charrete, com cavalinho e tudo”.

Na cidade de Cascavel não há mecânicas especializadas nesse tipo de serviço, dificultando o restauro desses veículos. O carro antigo em tese não é um veículo de uso diário do proprietário. Como o trabalho demora, a funilaria leva tempo para tratar dos problemas de corrosão, para o mecânico fica em segundo plano, já que o trabalho deles gira em torno do lucro.

Uma pessoa disposta a assumir um automóvel antigo, tem que levar em consideração a trajetória, os problemas de mecânica e entender principalmente que a preservação da história do país e de um veículo antigo anda lado a lado.





Texto de Silmara Santos


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