De
uma época de ditaduras, a herança são os automóveis antigos
A
porta se abre e ao lado direito é a cozinha, o chão é preto e
branco, uma geladeira vermelha ao fundo revela o visual retrô do
apartamento. Seguindo pela sala, a esquerda está uma Lambretta, uma
paixão que compõe o visual da casa.
Em
julho de 1977, foi criado em Curitiba o Veteran Car Clube do Paraná,
que mesmo com poucos adeptos ainda existe até hoje. Como forma de
preservar e beneficiar o antigo mobilismo.
Daniel
Toledo, neto de um dos fundadores abre as portas de sua residência,
localizada na área central de Cascavel, para contar um pouco mais
sobre esse hobby e o contato desde criança com o Antigo Mobilismo,
já que o avô materno foi um dos fundadores do clube.
A
residência é norteada de objetos que remetem aos anos 30 até
artigos de decoração atuais.
“Em
verdade minha história com o antigo mobilismo, vem desde antes do
meu nascimento, por parte do meu avô materno”.
Da
família de Daniel, muitos se tornaram adeptos, dentre eles, o mesmo
é um colecionador à 20 anos, possui 9 veículos de coleção.
O
primeiro carro que Daniel teve e no qual aprendeu a dirigir, aos 19
anos, foi um Passat 1983, do qual o padrasto comprou 0 km, o veículo
está hoje com 87 mil km de rodagem. Esse carro está armazenado em
um barracão junto com outros carros. “Não faço questão nenhuma
de andar, porque justamente a intenção é preservar, deixar longe
de perigos externos”.
Quando
uma coleção é iniciada, raramente há disponibilidade de espaço
para armazenar esses veículos, é quando entra o papel dos parentes
e amigos que ajudam com suas garagens.
“Meu
avô também sofria do mesmo problema que sofrem vários
colecionadores, guardar um carro não é fácil, muito menos de
esconder”.
No
processo de restauro de um veículo, cada peça tem sua história,
“um exemplo clássico disto é uma Caravan 1976, que sofreu com a
ação do tempo, apesar de ter sido de um único dono. Têm 49 mil
quilômetros, mas, como não foi devidamente preservada, está com a
pintura desgastada.
Há
muitas histórias que envolvem um carro de coleção, no caso Caravan
não possui o retrovisor de fábrica do lado do passageiro, uma peça
original que após 30 anos é muito difícil de encontrar para
reposição.
“Existe
uma borracharia no bairro Floresta, um amigo passou e viu o
retrovisor em uma Kombi. Em outra ocasião esse mesmo amigo me levou
até lá para confirmar se a peça era original de fábrica, ofereceu
ao proprietário cerca de R$30,00 e um retrovisor novo. O
proprietário sabendo do item valioso, disse que não venderia por
menos de R$150,00, fiquei constrangido e comecei a chamar por meu
amigo. Na pressa de vender ou não o borracheiro acabou cedendo a
oferta e vendeu o retrovisor”.
Como
cada peça tem um valor sentimental e de mercado muito elevado pela
raridade e dificuldade de se encontrar, existe um mercado paralelo ao
original de fábrica, com valores menores e peças sobre encomenda,
mas para colecionadores que prezam pela originalidade, esse tipo de
peça é usado somente em últimos casos.
Ele
conta que seu avô tinha um Impala 1959, americano, com cauda, que
comprou de uma viúva. Levou para casa guinchado. Pois, antes de
tentar ligar um veículo antigo, tem uma série de cuidados a se
tomar, o prejuízo de se causar algum dano para o motor pode ser
irreparável. Tinha corrente elétrica, a bomba de combustível
estava em perfeito estado, como ele sabia que tudo estava funcionando
encontrava qual era o problema do carro. Cerca de uma semana depois
da compra do carro, ele estava com insônia e desceu na garagem para
mexer no motor, viu um espírito no banco do motorista. Nessa ocasião
ele sentou no banco do caroneiro conversou com aquela pessoa que ali
estava, acreditando ser o falecido dono do veículo e orou por ele,
pediu para que seguisse o caminho e se desprendesse das coisas
materiais, após isso ele voltou para o quarto dormir. Na manhã
seguinte foi até a garagem e novamente tentou ligar o veículo, que
funcionou sem nenhum problema.
“Pode
se concluir que todo carro tem uma trajetória a ser respeitada”.
Um
colecionador adota um carro como se fosse um filho, o propósito de
preservar é o mesmo princípio de cuidar de uma criança. Para
cuidar de um filho leva-se ao médico, não se deixa brincar em
locais de risco. Um automóvel é tratado da mesma maneira, cuidando
para não passar em buracos, não se deixa em locais que possam
sofrer a ação do tempo, entre muitos outros cuidados.
“Em
relação aos carros de uma maneira geral, sempre tem proposta, mas
as pessoas não têm noção nenhuma de cuidados ou de valores. Certa
vez eu recebi proposta de trocar meu Passat em uma charrete, com
cavalinho e tudo”.
Na
cidade de Cascavel não há mecânicas especializadas nesse tipo de
serviço, dificultando o restauro desses veículos. O carro antigo em
tese não é um veículo de uso diário do proprietário. Como o
trabalho demora, a funilaria leva tempo para tratar dos problemas de
corrosão, para o mecânico fica em segundo plano, já que o trabalho
deles gira em torno do lucro.
Uma
pessoa disposta a assumir um automóvel antigo, tem que levar em
consideração a trajetória, os problemas de mecânica e entender
principalmente que a preservação da história do país e de um
veículo antigo anda lado a lado.
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| Texto de Silmara Santos |

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