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segunda-feira, 17 de março de 2014

Responsabilidade: cuide do conhecimento! Renan e Kássia

Inadimplência? Descaso? Ou apenas falta de atenção? Por incrível que pareça, o número de livros devolvidos na biblioteca Santa Inês da Univel é cada vez maior. Atitude não condiz com ambiente acadêmico.



Esta não é uma reportagem imparcial. Ao contrário da maioria das reportagens jornalísticas em que apenas apresentam-se os fatos, cabendo a você leitor tomar suas próprias conclusões, aqui, partimos do pressuposto de que acima de tudo, é nosso dever como comunicadores sociais, defender o patrimônio público e os interesses da comunidade em geral.


A pauta para a realização deste texto surgiu a partir de relatos de que “os responsáveis por apagar rasuras dos livros disponíveis na biblioteca Santa Inês da Univel, estariam com ‘bolhas nas mãos’, resultadas do excesso de exemplares que são devolvidos todos os dias à instituição com rabiscos e anotações à caneta e/ou a lápis.


Inadimplência? Descaso? Ou apenas falta de atenção? Fomos investigar. Independentemente de suas conclusões, o fato é que o patrimônio da faculdade (que no caso nós mesmos utilizamos) é prejudicado todos os dias, e segundo a supervisora da equipe noturna da biblioteca Roseli Rodeio, “mesmo os livros rasurados a lápis, prejudicam os exemplares, já que ao apagar os rabiscos, muitas folhas ficam amassadas, e o conteúdo deles fica mais claro, diminuindo assim a vida útil”, afirma.


De acordo com os princípios estabelecidos na LDB (Lei de Diretrizes e Base da Educação), de 1996, e da Constituição Brasileira de 1988, a Biblioteca Universitária é requisito fundamental para o processo eficaz da formação acadêmica, sendo seu papel oferecer suporte às atividades acadêmicas, sejam elas de ensino, pesquisa ou extensão.


Considerando inquestionável a importância do espaço e seu conteúdo em qualquer instituição de ensino superior, fomos tentar entender o porquê de esta atitude ter se tornado tão comum mesmo em um ambiente frequentado por pessoas que deveriam ter noções de responsabilidade e de quão errado é prejudicar o patrimônio público. Desinformação certamente não é a resposta.


Para o professor Marcelo Hansen (o Lelo, como ele mesmo se apresenta), “a depredação pode estar ligada a mero vandalismo, destruição daquilo que não assume significância para a vida do indivíduo ou que, de certo modo, lhe gera uma espécie de rancor ou opressão, em função de uma situação de desenraizamento. Isto é, não sentir-se pertencente àquela realidade”, afirma.


Ainda, de acordo com o professor, nesse sentido, “faz-se necessário analisar que a depredação também é um ato de questionar a memória produzida de modo oficial, por meio de imagens, esculturas, estátuas, que não dizem respeito à trajetória de vida daquele cidadão e/ou comunidade, impostas de modo hegemônico pelos detentores do poder”, relata.


Vinicius Rayan Silva tem 15 anos e é auxiliar de biblioteca há 3 semanas. O estagiário é responsável por apagar rasuras, e segundo ele, desde que ocupa a função, todos os livros que apagou rabiscos fazem parte do acervo de consulta local do curso de Direito. Questionado sobre sua opinião, Vinicius afirma: “Considero muito errado, uma coisa que eles precisam entender é que estão prejudicando outras pessoas e diminuindo a vida útil dos livros”.


Paralela à irresponsabilidade de alguns, muitos são prejudicados pelo excesso de rabiscos, como é o caso de Larissa Valduga de 27 anos. A acadêmica do 2º ano de Direito, em seu último empréstimo levou para casa um exemplar rasurado. Ela reconhece a importância da biblioteca na instituição e desaprova a atitude dos colegas: “A biblioteca tem importância impar em relação ao meu crescimento e conhecimento, é um dos meios facilitadores para tal. As rasuras com certeza atrapalham, afinal um livro não tem o seu conteúdo importante definido em algumas páginas, mas sim em todas, qualquer tipo de alteração  do seu conteúdo atrapalha ou dificulta a pesquisa. Com certeza a deterioração dos livros em um ambiente acadêmico não condiz” – afirma.


Opinião esta, que também é compartilhada pela supervisora da equipe noturna na biblioteca: “Considero uma falta de respeito! Pelo nível de conhecimento (superior), esperávamos dos acadêmicos outra atitude, ao menos mais cuidados” – afirma Roseli.


De acordo com a bibliotecária-chefe Tatiana Demichei, os acadêmicos são os usuários mais prejudicados com a danificação das obras, pois as rasuras realizadas com caneta e marcador de texto acabam dificultando a leitura e muitos professores não autorizam a utilização de obras rasuradas durante os trabalhos em sala de aula. “Acredito que muitas pessoas não respeitam mais o bem comum, não estão preocupadas se as suas atitudes irão prejudicar o seu colega, preocupam-se apenas consigo mesmas. Infelizmente, muitos usuários acreditam que rasuras realizadas a lápis não irão danificar as obras, mas esquecem que a obra acaba se desgastando cada vez que necessita ser apagada e que às vezes ocorre a necessidade de descartar a obra” – lamenta Tatiana.


Infelizmente, dificilmente os responsáveis por rasurar o acervo são encontrados. Mas caso seja constatado que o usuário danificou uma obra, ele deverá fazer a reposição do exemplar. Por isso a importância de sempre observar o livro que você irá emprestar, caso constate que seu livro está rasurado, antes de emprestá-lo, informe sobre a situação do mesmo no balcão de atendimento. Faça a sua parte!



Mudança


De acordo com o professor Marcelo, um dos principais caminhos é o investimento em um modelo de educação que promova o encontro do aluno com a prática acadêmica. Segundo ele: “O que se observa, em muitos casos, é o distanciamento da atividade intelectual, colocando o estudo de grandes clássicos da sociologia, da filosofia, da literatura, do direitos, entre outros, distante da realidade vivenciada por este aluno. Nesse sentido, o investimento em políticas públicas sérias, comprometidas em desenvolver a educação no país, faz-se necessário desde as séries iniciais, com cobranças, mas ao mesmo tempo oportunidades e condições para o aluno desenvolver projetos, produtos, que venham a estabelecer um diferencial em seu cotidiano” - afirma.


Para Hansen, não basta garantir a inclusão ao universo da educação. “É necessário uma política educacional séria, voltada para formação de competências e habilidades, com cobrança, com avaliações dentro da realidade atual, bem como uma política de investimento em infraestrutura e de valorização do professorado, desde os primeiros anos da vida escolar. Assim, estaremos dando o primeiro passo para promover uma transformação lenta, todavia necessária para qualquer povo que se pretende desenvolvido” – declara.





Biblioteca Santa Inês


A biblioteca Santa Inês conta com um acervo de 60.720 exemplares, que inclui livros, revistas, vídeos, CDs, DVDs e holográficas das mais diversas áreas. A saber: Direito, marketing, processamento de dados, literatura, filosofia, psicologia, sociologia, economia, comunicação social, metodologia, economia, ética, agronegócio, relações internacionais, gastronomia, artes, legislação, além de um acervo de bibliografias, dicionários e Diários da Justiça.


Destes, de acordo com a bibliotecária-chefe Tatiana Demichei, todos os meses são emprestados de 10 a 15 mil livros. “No entanto, pode variar bastante com o período, férias e provas”, relata Tatiana.





Unioeste

O acervo rasurado não é exclusividade da Univel. A inadimplência dos acadêmicos é frequente em todo o Brasil, seja em Instituições públicas ou privadas. Em Cascavel, o mesmo ocorre na biblioteca da Unioeste. A universidade dispõe quase 63 mil exemplares em seu acervo, e destes, quase todos estão rasurados. O estagiário Ramã Cândido, 18, trabalha na Instituição há um ano e relata que os acadêmicos de medicina são os que mais rasuram. Diferentemente da Univel, na Unioeste não há um funcionário responsável por apagar os rabiscos, a manutenção dos mesmos é realizada através de mutirões apenas nos períodos de férias.


Texto de Renan Bini

Texto de Kássia Beltrame

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