Inadimplência?
Descaso? Ou apenas falta de atenção? Por incrível que pareça, o número de
livros devolvidos na biblioteca Santa Inês da Univel é cada vez maior. Atitude
não condiz com ambiente acadêmico.
Esta não é uma
reportagem imparcial. Ao contrário da maioria das reportagens jornalísticas em
que apenas apresentam-se os fatos, cabendo a você leitor tomar suas próprias
conclusões, aqui, partimos do pressuposto de que acima de tudo, é nosso dever
como comunicadores sociais, defender o patrimônio público e os interesses da
comunidade em geral.
A pauta para a
realização deste texto surgiu a partir de relatos de que “os responsáveis por
apagar rasuras dos livros disponíveis na biblioteca Santa Inês da Univel,
estariam com ‘bolhas nas mãos’, resultadas do excesso de exemplares que são
devolvidos todos os dias à instituição com rabiscos e anotações à caneta e/ou a
lápis.
Inadimplência?
Descaso? Ou apenas falta de atenção? Fomos investigar. Independentemente de
suas conclusões, o fato é que o patrimônio da faculdade (que no caso nós mesmos
utilizamos) é prejudicado todos os dias, e segundo a supervisora da equipe
noturna da biblioteca Roseli Rodeio, “mesmo os livros rasurados a lápis,
prejudicam os exemplares, já que ao apagar os rabiscos, muitas folhas ficam
amassadas, e o conteúdo deles fica mais claro, diminuindo assim a vida útil”,
afirma.
De acordo com os
princípios estabelecidos na LDB (Lei de Diretrizes e Base da Educação), de 1996,
e da Constituição Brasileira de 1988, a Biblioteca Universitária é requisito
fundamental para o processo eficaz da formação acadêmica, sendo seu papel
oferecer suporte às atividades acadêmicas, sejam elas de ensino, pesquisa ou
extensão.
Considerando
inquestionável a importância do espaço e seu conteúdo em qualquer instituição
de ensino superior, fomos tentar entender o porquê de esta atitude ter se
tornado tão comum mesmo em um ambiente frequentado por pessoas que deveriam ter
noções de responsabilidade e de quão errado é prejudicar o patrimônio público.
Desinformação certamente não é a resposta.
Para o professor
Marcelo Hansen (o Lelo, como ele mesmo se apresenta), “a depredação pode estar
ligada a mero vandalismo, destruição daquilo que não assume significância para
a vida do indivíduo ou que, de certo modo, lhe gera uma espécie de rancor ou
opressão, em função de uma situação de desenraizamento. Isto é, não sentir-se
pertencente àquela realidade”, afirma.
Ainda, de acordo
com o professor, nesse sentido, “faz-se necessário analisar que a depredação
também é um ato de questionar a memória produzida de modo oficial, por meio de
imagens, esculturas, estátuas, que não dizem respeito à trajetória de vida
daquele cidadão e/ou comunidade, impostas de modo hegemônico pelos detentores
do poder”, relata.
Vinicius Rayan
Silva tem 15 anos e é auxiliar de biblioteca há 3 semanas. O estagiário é
responsável por apagar rasuras, e segundo ele, desde que ocupa a função, todos
os livros que apagou rabiscos fazem parte do acervo de consulta local do curso
de Direito. Questionado sobre sua opinião, Vinicius afirma: “Considero muito
errado, uma coisa que eles precisam entender é que estão prejudicando outras
pessoas e diminuindo a vida útil dos livros”.
Paralela à irresponsabilidade
de alguns, muitos são prejudicados pelo excesso de rabiscos, como é o caso de Larissa
Valduga de 27 anos. A acadêmica do 2º ano de Direito, em seu último empréstimo
levou para casa um exemplar rasurado. Ela reconhece a importância da biblioteca
na instituição e desaprova a atitude dos colegas: “A biblioteca tem importância
impar em relação ao meu crescimento e conhecimento, é um dos meios
facilitadores para tal. As rasuras com certeza atrapalham, afinal um livro não
tem o seu conteúdo importante definido em algumas páginas, mas sim em todas,
qualquer tipo de alteração do seu
conteúdo atrapalha ou dificulta a pesquisa. Com certeza a deterioração dos livros
em um ambiente acadêmico não condiz” – afirma.
Opinião esta,
que também é compartilhada pela supervisora da equipe noturna na biblioteca:
“Considero uma falta de respeito! Pelo nível de conhecimento (superior),
esperávamos dos acadêmicos outra atitude, ao menos mais cuidados” – afirma
Roseli.
De acordo com a
bibliotecária-chefe Tatiana Demichei, os acadêmicos são os usuários mais
prejudicados com a danificação das obras, pois as rasuras realizadas com caneta
e marcador de texto acabam dificultando a leitura e muitos professores não
autorizam a utilização de obras rasuradas durante os trabalhos em sala de aula.
“Acredito que muitas pessoas não respeitam mais o bem comum, não estão
preocupadas se as suas atitudes irão prejudicar o seu colega, preocupam-se
apenas consigo mesmas. Infelizmente, muitos usuários acreditam que rasuras realizadas
a lápis não irão danificar as obras, mas esquecem que a obra acaba se
desgastando cada vez que necessita ser apagada e que às vezes ocorre a necessidade
de descartar a obra” – lamenta Tatiana.
Infelizmente,
dificilmente os responsáveis por rasurar o acervo são encontrados. Mas caso
seja constatado que o usuário danificou uma obra, ele deverá fazer a reposição
do exemplar. Por isso a importância de sempre observar o livro que você irá
emprestar, caso constate que seu livro está rasurado, antes de emprestá-lo, informe
sobre a situação do mesmo no balcão de atendimento. Faça a sua parte!
Mudança
De acordo com o
professor Marcelo, um dos principais caminhos é o investimento em um modelo de
educação que promova o encontro do aluno com a prática acadêmica. Segundo ele:
“O que se observa, em muitos casos, é o distanciamento da atividade
intelectual, colocando o estudo de grandes clássicos da sociologia, da
filosofia, da literatura, do direitos, entre outros, distante da realidade
vivenciada por este aluno. Nesse sentido, o investimento em políticas públicas
sérias, comprometidas em desenvolver a educação no país, faz-se necessário
desde as séries iniciais, com cobranças, mas ao mesmo tempo oportunidades e
condições para o aluno desenvolver projetos, produtos, que venham a estabelecer
um diferencial em seu cotidiano” - afirma.
Para Hansen, não
basta garantir a inclusão ao universo da educação. “É necessário uma política
educacional séria, voltada para formação de competências e habilidades, com
cobrança, com avaliações dentro da realidade atual, bem como uma política de
investimento em infraestrutura e de valorização do professorado, desde os
primeiros anos da vida escolar. Assim, estaremos dando o primeiro passo para
promover uma transformação lenta, todavia necessária para qualquer povo que se
pretende desenvolvido” – declara.
Biblioteca
Santa Inês
A biblioteca
Santa Inês conta com um acervo de 60.720 exemplares, que inclui livros,
revistas, vídeos, CDs, DVDs e holográficas das mais diversas áreas. A saber:
Direito, marketing, processamento de dados, literatura, filosofia, psicologia,
sociologia, economia, comunicação social, metodologia, economia, ética,
agronegócio, relações internacionais, gastronomia, artes, legislação, além de
um acervo de bibliografias, dicionários e Diários da Justiça.
Destes, de
acordo com a bibliotecária-chefe Tatiana Demichei, todos os meses são emprestados
de 10 a 15 mil livros. “No entanto, pode variar bastante com o período, férias
e provas”, relata Tatiana.
Unioeste
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| Texto de Renan Bini |
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| Texto de Kássia Beltrame |


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